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José Dirceu
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São Paulo
14/4/2026 | Atualizado às 7:14
São Paulo foi o principal polo da industrialização brasileira. No estado, estruturaram-se cadeias produtivas complexas, consolidou-se um mercado de trabalho urbano e formou-se uma classe trabalhadora organizada, com sindicatos fortes e presença política decisiva. A própria origem do Partido dos Trabalhadores está ligada a esse processo histórico. A industrialização paulista foi, ao mesmo tempo, um fenômeno econômico e um fator de organização social, de disputa política e de ampliação de direitos.
Esse percurso esteve associado a um debate estratégico sobre o papel do Estado. Na primeira metade do século XX, Roberto Simonsen, industrial paulista, defendeu a necessidade de planejamento econômico, incentivo à indústria e ação estatal coordenada. Seu grande opositor no debate público da época, o economista liberal Eugênio Gudin, sustentava uma posição distinta, baseada na primazia do mercado e na mínima intervenção. A trajetória de São Paulo não deixa dúvidas sobre qual caminho foi determinante. A industrialização brasileira, especialmente em seu núcleo paulista, foi resultado de políticas deliberadas, investimento público, crédito direcionado e definição de setores estratégicos para os interesses do País – e, no caso de São Paulo, para os interesses do estado.
Essa lembrança histórica é importante para compreender o momento atual, em que São Paulo enfrenta uma perda relevante de densidade industrial e, o mais grave, não vê em seu governador, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), preparo ou disposição para reagir. Falta ao governo paulista o fundamental: uma política industrial capaz de dar respostas críveis e consistentes a esse processo.
Se é verdade que o Brasil, como um todo, enfrentou a desindustrialização – isto é, a redução ou eliminação de atividades industriais, com a economia passando a se apoiar primariamente no setor agropecuário ou de serviços –, também é verdade que, enquanto Tarcísio parece ignorar o problema, o governo do presidente Lula tem trabalhado arduamente para refazer a rota no plano nacional. O contraste é evidente, e explico o porquê.
O governo Tarcísio não apresenta uma estratégia estruturada, não define prioridades e não articula instrumentos de desenvolvimento. Esse quadro está longe de ser apenas um problema de gestão ou de visão administrativa. Ele expressa um vazio mais profundo. É fruto de uma direita que não apresenta uma formulação consistente de desenvolvimento, nem uma coalizão capaz de sustentar uma estratégia de longo prazo. No caso de São Paulo, isso se traduz em um governo que opera sem direção econômica clara, apoiado mais em imagem e gestão pontual do que em um projeto estruturado para o estado.
Em contrapartida, o governo do presidente Lula recolocou a indústria no centro da estratégia de desenvolvimento. O programa Nova Indústria Brasil, liderado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, que ocupou até o início de abril o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, estabelece prioridades, articula inovação, sustentabilidade e agregação de valor e busca reverter o processo de desindustrialização. Em paralelo, o PAC retoma o investimento público como instrumento de dinamização econômica, com impacto direto sobre a capacidade produtiva e a geração de empregos.
Enquanto isso, o BNDES voltou a ter papel ativo, não só pela retomada do elevado patamar de concessão de crédito – com sua carteira chegando a R$ 664 bilhões, crescimento de 39% em relação a 2022, último ano do governo Bolsonaro –, como também pela retomada de seu papel histórico como formulador de políticas públicas e instrumento de financiamento de projetos estruturantes. E o fez diversificando a estratégia, apostando na viabilização de investimentos, na geração de empregos nos setores industrial, agrícola, de comércio, serviços e infraestrutura, e estimulando a inovação, a modernização e a descarbonização da economia. Mais do que nunca, sua atuação deverá estar, nos próximos anos, articulada com outras instituições públicas, como Finep, bancos regionais e agências de inovação, formando um sistema coordenado de financiamento capaz de induzir investimentos, reduzir riscos e ampliar a complexidade produtiva da economia brasileira.
Em síntese, o projeto do governo Lula demonstra um esforço real e um pensamento claro de reconstrução de uma estratégia nacional de desenvolvimento.
Em São Paulo, não há equivalente. Falta integração entre investimento público, crédito, ciência e tecnologia. O estado, que historicamente liderou esse processo, hoje atua de forma reativa. A ausência de coordenação enfraquece cadeias produtivas, reduz a capacidade de inovação e compromete a competitividade da economia paulista no médio e longo prazo.
Um dos aspectos mais preocupantes é o enfraquecimento de instituições ligadas à pesquisa e à inovação. São Paulo construiu, ao longo de décadas, um sistema robusto de ciência e tecnologia, com universidades públicas, institutos de pesquisa e centros tecnológicos que tiveram papel decisivo na industrialização. Esse patrimônio exige continuidade de financiamento, integração com o setor produtivo e inserção em uma estratégia de desenvolvimento. Sem isso, perde capacidade de gerar conhecimento aplicado e de sustentar atividades industriais mais complexas.
Mas com Tarcísio o que se viu foi descaso com a Fapesp, corte do orçamento da Educação em R$ 10 bilhões e o sucateamento de instituições como a Fundação Paula Sousa, Etecs (Escolas Técnicas Estaduais) e Fatecs (Faculdades de Tecnologia).
Não há hipótese de uma estratégia produtiva consistente sem base científica e tecnológica. Os países que lideram a economia mundial operam com políticas explícitas de desenvolvimento, combinando planejamento, financiamento, inovação e proteção de setores estratégicos. Não há exemplo relevante de país que tenha se industrializado ou mantido sua base produtiva apenas com base na autorregulação do mercado. A ausência de política é uma escolha que favorece a especialização regressiva e a dependência externa. Esse é o modelo de Tarcísio de Freitas.
Os efeitos desse processo já são visíveis. Não faz muito tempo, um levantamento mostrou que São Paulo foi o quarto estado brasileiro com maior perda industrial. Em alguns casos, foi um processo de desindustrialização prematura, em setores de grande intensidade tecnológica, como montadoras de veículos, metalúrgicas e a indústria química e petroquímica. Esse fenômeno não se restringiu a São Paulo, mas aqui se torna mais eloquente, pela sua condição histórica de locomotiva do desenvolvimento. Quando São Paulo perde, o Brasil perde mais.
Com a retração industrial, a economia se torna mais dependente de produtos importados e a capacidade de gerar empregos qualificados se reduz. Isso impacta diretamente a renda, a arrecadação e o dinamismo econômico do estado. A indústria tem um efeito multiplicador que poucos setores possuem. Sua retração afeta toda a estrutura econômica. Além disso, esse movimento enfraquece a base social que historicamente sustentou processos de democratização e ampliação de direitos. A classe trabalhadora brasileira se constituiu com o avanço da industrialização, da urbanização e da organização sindical. Como costumo dizer, sempre que essa classe começou a se afirmar como sujeito político, vieram reações para conter esse processo.
São Paulo dispõe de condições objetivas para enfrentar esse quadro. Possui base produtiva instalada, infraestrutura, centros de pesquisa e um mercado interno relevante. Mas esses elementos não se articulam automaticamente. Sem coordenação estatal, tendem à fragmentação.
Retomar uma política industrial no estado significa enfrentar os desafios atuais: transformação tecnológica, digitalização, transição energética e reorganização das cadeias globais. Isso exige integrar política industrial, ciência e tecnologia, financiamento e formação de mão de obra. Exige também articular o desenvolvimento produtivo com a agenda ambiental e com a agregação de valor.
O Brasil, felizmente, voltou a discutir desenvolvimento. Mas São Paulo, até agora, não acompanhou esse movimento. O estado que foi o motor da industrialização brasileira não pode se contentar com uma gestão sem direção estratégica. O problema é a falta de projeto e, sobretudo, a incapacidade de Tarcísio de Freitas e seus auxiliares de enxergarem as evidências. Preferem, ao contrário, fazer propaganda, tentando difundir a imagem de bom gestor – algo que, no caso da política industrial (ou de sua ausência), não resiste aos fatos. E esta não é a única fraude na imagem de Tarcísio.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].