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Paulo José Cunha
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Prender os golpistas, sim, sem esquecer de matar a serpente do golpe
Paulo José Cunha
Violência estrutural: só ficou no muro tristeza e tinta fresca
Política digital
23/3/2026 15:53
O bolsonarismo permitiu a visualização de um fenômeno com o qual os operadores, pesquisadores e professores das mais diversas áreas, sobretudo da Comunicação, entre os quais me incluo, já vinham se ocupando há algum tempo. Trata-se do que vem sendo chamado de "ignorância voluntária". Na filosofia, ela é definida como uma decisão deliberada por não aceitar ou evitar informações ou conhecimentos relevantes. Na maioria das vezes, como ocorre com os bolsonaristas mas também com radicais de esquerda, esse absenteísmo informacional, se assim o podemos classificar, tem por objetivo o escape de responsabilidades éticas ou à fuga à exposição a verdades desconfortáveis. Ou, apenas, para evitar por em dúvida crenças existenciais, políticas e/ou religiosas. Mas, atenção: a "ignorância voluntária" nada tem a ver com a chamada "ignorância douta", aquela que levou Sócrates a afirmar: "só sei que nada sei". No caso do bolsonarismo-raiz, a postura de voluntariamente abster-se de buscar e consumir informações relevantes e responsáveis confunde-se com uma forte resistência à razão e ao aprendizado. Os que se isolam na bolha de suas crenças e convicções o fazem por auto-proteção e comodismo.
Ultimamente esse tipo de postura tem crescido exponencialmente. Basta lembrar a época da pandemia, quando as autoridades sanitárias recomendavam o uso de máscaras, vacinação e cuidados com aglomerações. E milhares – milhões! – de pessoas simplesmente deram as costas a todos esses cuidados, preferindo ouvir e seguir os "ensinamentos" de pessoas completamente despreparadas sobre o assunto, como foi o caso de Jair Bolsonaro, que chegou a prescrever medicamentos sem qualquer eficácia, como a cloroquina, ajudando a levar ao túmulo nada menos que 700 mil pessoas. Claro que ali já se verificava um forte componente de natureza político-ideológico na determinação de dar as costas às informações confiáveis sobre a doença. O que interessava era seguir o líder e tamos conversados. Mas ultimamente, passada a pandemia, a desinformação voluntária vem se concentrando e se alastrando perigosamente por outras áreas, com riscos sérios à própria democracia.
Se repararem no seu entorno, os leitores e leitoras vão se lembrar rapidamente daquele tio ou daquela amiga que se orgulha de não ler jornais, não assistir telejornais e não ouvir radiojornais. A explicação para esse absenteísmo midiático é sempre a mesma: "não acredito em nada que eles dizem e não vou perder meu tempo e meu dinheiro com isso, tenho mais o que fazer". Quando confrontados com o argumento de que, mesmo contendo erros, a informação produzida pelos meios de comunicação tradicionais é submetida a um protocolo de checagem antes de ser publicada, assumem um ar de pouco caso para responderem: "tsk, tsk, tsk, tenho mais o que fazer do que ficar gastando meu tempo e meu dinheiro com esse povo. Até porque todo dia meus amigos me mandam, de graça, aqui pelo whatsapp, tudo o que eu preciso saber".
Como a ampla maioria faz parte de bolhas político-ideológicas, impermeáveis ao diálogo e à aceitação de opiniões contrárias, de nada adianta qualquer argumentação, mesmo apoiada em provas, dados e fatos irrefutáveis. Deliberadamente essas pessoas refutam a verdade, por não se disporem a se abrir ao óbvio. No conforto de suas convicções arraigadas, resistem irredutivelmente à razão.
No ambiente digital em que estamos mergulhados, há um outro componente que agudiza ainda mais esse quadro: a ação dos algoritmos, adestrados para reforçar mais do mesmo, numa espiral sem fim nem abertura a qualquer informação nova e diferente do lugar-comum reinante nas "câmaras de eco". O mais preocupante e assustador é que esse quadro gera um ambiente ideal aos radicalismos e deles, à violência. Não existe "arejamento" que altere as convicções sedimentadas e arraigadas. O resultado é a permissividade para quaisquer atos, principalmente os violentos, em "defesa" da opinião predominante dentro da bolha.
Esse fenômeno é mais comum nos segmentos ideológicos de direita, historicamente infensos à abertura para novas ideias, ao diálogo e completamente resistentes a qualquer mudança de opinião que, para o grupo pertencente à bolha, soa como fraqueza e capitulação.
Há quem afirme que a saída para esse auto-isolamento dentro das bolhas seria uma tomada de consciência do modus operandi dos algoritmos, acompanhada por um esforço deliberado na busca de informações novas que possam "arejar" convicções arraigadas. Mas não é bem assim. Primeiro, porque não há como gerar esse "esforço deliberado" pela busca de informações novas. Segundo porque, para que houvesse um início de confrontação e mudança do quadro atual, seria necessário que essa temática fosse incluída no âmbito dos processos educacionais. A oferta de conteúdos voltados para essa temática deveria vir desde os primeiros anos pós-letramento. Com a oferta sistemática dos diversos pontos de vista, a fim de que o cidadão do futuro disponha de um repertório de dados e argumentos que lhe garantam liberdade para extrair desse quadro uma convicção própria, e não o faça apenas repetir ano após ano os velhos e surrados mantras que contribuíram para a criação do deplorável e perigoso quadro atual.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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