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Paulo José Cunha
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Prender os golpistas, sim, sem esquecer de matar a serpente do golpe
Imprensa
14/4/2026 15:00
Sim, já faz algum tempo, mas é sempre bom voltar a um tema quando ele merece. É o caso aqui. Aquela arte elaborada e exibida pela Globonews na tentativa de oferecer uma explicação, digamos, didática, sobre as conexões de Daniel Vorcaro, na intenção de ajudar a jogar luzes sobre a roubalheira dele e dos beneficiários, seus cúmplices, dando destaque para o PT e a família Lula, terminou detonando uma bomba cujos estilhaços atingiram diretamente a credibilidade das organizações Globo. E as explicações, no texto lido pela jornalista Andréia Sadi, em vez de amenizar as críticas, jogaram mais lenha no episódio, gerando um caudal de ataques, sobretudo a ela, como se tivesse sido a única autora e, portanto, a responsável pelo do texto da explicação que não explicou coisa alguma.
As redes sociais viraram um palanque público no qual qualquer um pode publicar o que bem entende, sem respeito algum pela verdade e pela honorabilidade de pessoas e instituições. É um palanque absolutamente irresponsável. As críticas a Sadi foram feitas majoritariamente ali.
É preciso entender, desde logo, que repórteres e apresentadores são peças de uma enorme engrenagem destinada à elaboração de um produto midiático que chega à casa ou aos celulares das pessoas. Se alguém aí acha que as explicações apresentadas por Andréia Sadi são de exclusiva responsabilidade dela, está redondamente enganado. Num caso de tamanha gravidade, envolvendo a credibilidade do maior conglomerado de mídia do país, jamais um texto como aquele saiu exclusivamente da cabeça de uma única pessoa. Pela gravidade do episódio, é claro que a alta cúpula do jornalismo da emissora – e do próprio grupo Globo – participaram de sua elaboração.
Não esqueço o dia, lá em 1994, quando a Globo teve de engolir um direito de resposta de Leonel Brizola, garantido por decisão judicial após uma longa peregrinação e uma série de recursos. Dois anos antes – isto mesmo, dois anos! – o Jornal Nacional havia divulgado um editorial questionando a sanidade mental e a capacidade do então governador do Rio de Janeiro Leonel Brizola. No direito de resposta, Brizola acusou a Globo de ser "tendenciosa e manipulada", de ter "conivência com a ditadura", de perseguir políticos que não se curvavam ao seu poder e que a "ira" da Globo se explicava pelo fato de ele ter construído o Sambódromo em 1983, o que tirou da emissora o monopólio da transmissão do desfile das escolas de samba. Quem quiser, pode conferir aqui.
Claro que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, assim como uma época é uma época e outra época etc. Mas dá pra imaginar o quanto foi complicado para Cid Moreira ler aquele texto com ataques a seu patrão, em pleno JN, na época o telejornal de maior audiência no país. Assim como deve ter sido difícil para Andréia Sadi ler aquele texto que, com certeza passou pelo crivo dos mais altos mandatários da emissora e do próprio Grupo Globo. Não há registro de críticas a Cid Moreira por ter lido a nota de Brizola, determinada pela justiça. Mas hoje Sadi virou a Geni de Chico Buarque. Todo mundo está jogando pedra nela.
É simplório o conselho de que, se discorda da posição do veículo, o melhor seria pedir o boné e ir embora. Não é assim que a banda toca. Várias vezes ouvi colegas criticando a posição editorial de seus veículos, e mesmo assim, não se demitiram, simplesmente continuaram a fazer o seu trabalho.
Que fique claro: mal conheço a Andréia Sadi. Cruzei com ela e trocamos cumprimentos pelos corredores do Congresso algumas poucas vezes, e mais nada. Mas o episódio pode ajudar a refletir sobre alguns pontos, como os citados acima. Além, é claro, da necessidade de se focar onde se deve, ou seja, nas Organizações Globo, e não na jornalista Andréia Sadi que, ao fim e ao cabo, foi apenas a mensageira. E tal como na Grécia antiga, está sendo executada por trazer a "má notícia".
Faz lembrar a história, nunca confirmada, de que o jornalista Oto Lara Rezende trabalhava em dois jornais de posições políticas antagônicas e tinha de escrever num deles a favor de tal tema de manhã e à tarde escrever contra no outro. Ou, exagerando, a história que ouvi de Carlos Castelo Branco de que deram a um jornalista a tarefa de escrever um editorial sobre a Paixão de Cristo e ele teria perguntado: contra ou a favor?
Claro que são lendas dos tempos do jornalismo romântico. Mas são boas para refletir sobre o caso do powerpoint infame. Que aquele mea culpa lido por ela merece críticas, merece. Mas é preciso mirar em qual cabeça deve cair a cacetada. Seria mesmo na dela ou seria nas cabeças de seus patrões?
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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