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Marina Helou
Marina Helou
Marina Helou
Política
30/4/2026 17:30
Falar sobre a presença de mulheres na política ainda é, muitas vezes, reduzido a um debate sobre representatividade. Essa perspectiva é, sem dúvida, um passo importante, que precisamos valorizar. Mas, diante do que o noticiário tem nos mostrado, acredito que o sentido da nossa presença nos espaços de poder ganhe um caráter ainda mais urgente. Trata-se de uma estratégia concreta para enfrentarmos a escalada de violência e misoginia, da qual somos recorrentemente vítimas.
O que temos assistido, cada vez mais, é uma intensificação de discursos de ódio e tentativas sistemáticas de silenciar mulheres em diversos setores da sociedade, inclusive na vida pública. Esse processo, claro, está ligado a velhas estruturas que sempre buscaram limitar o nosso acesso aos espaços de poder. Por isso mesmo, combater esse cenário definitivamente não é uma tarefa fácil. No entanto, se quisermos construir uma real democracia, é crucial enfrentar esse problema.
Recentemente, tivemos um caso emblemático: o Senado aprovou - não sem resistências - o projeto de lei que equipara a misoginia ao crime de racismo. A discussão, que agora está na Câmara dos Deputados, sem dúvida precisará contar com forte pressão da sociedade para não ser esvaziada. E é triste pensar que esse risco é iminente, mesmo diante do escabroso número de 1.568 mulheres assassinadas no ano passado. Estamos falando do maior número de feminicídios registrado da última década.
Imaginemos como seria saudável para a democracia se tivéssemos um Legislativo mais sensível a pautas dessa importância. No entanto, temos que nos deparar com o parlamento brasileiro ocupando o vexatório lugar de 133ª posição no ranking global de representação parlamentar de mulheres (Mapa da Política da ONU Mulheres).
E é nesse ponto que a presença de mulheres na política faz diferença. Não porque mulheres pensam todas iguais, longe disso. Mas porque, assim como outros grupos sociais, possuem perspectivas diferentes daquelas propostas pelos habituais mandatários e tomadores de decisão. Dos mesmos que, historicamente, costumam sentar nas cadeiras de poder na sociedade.
Sou testemunha de que ocupar essas cadeiras não é tarefa fácil, já que estou em meu segundo mandato no Legislativo estadual de São Paulo. Mas quando propusemos, por exemplo, o projeto de lei nº 94/2024, que institui a Política de Empregabilidade de Mulheres em Situação de Violência Doméstica, trouxemos um olhar muito peculiar para o problema. Algo que sobretudo nós mulheres conhecemos muito bem: a dependência econômica é um dos principais obstáculos para a ruptura com ciclos abusivos. Por isso, a proposta oferece uma política pública concreta, com ferramentas de emancipação à vítima - para além de discursos vazios que nada ajudam sua situação.
Outra vitória foi a aprovação da lei nº 18.425/2026, de minha autoria em conjunto com mais doze deputadas de diversas siglas partidárias da Alesp. A legislação assegura o direito à amamentação e ao aleitamento materno em creches públicas e privadas de São Paulo. Mais uma vez, trata-se de uma política pública que afeta sensivelmente a vida de milhares de mulheres que, inseridas no contexto da maternidade, não querem que a entrada na educação infantil represente um prejuízo à saúde de seus filhos.
Sem falar em exemplos legislativos de grande relevância nacional, que serviram de inspiração para políticas internacionais. Como não mencionar os 20 anos da aprovação da Lei Maria da Penha, aprovada em um momento de ainda maior sub-representação de mulheres na política. Importante dizer que a proposta só teve êxito graças à pressão da sociedade e ao trabalho incansável de Maria da Penha Maia Fernandes, sobrevivente a duas tentativas de feminicídio pelo marido.
Isso tudo mostra o quanto a participação de mulheres na política não é apenas uma questão numérica, de quantas mulheres "vão sair na foto", mas de quais agendas políticas serão de fato priorizadas. E o problema não é somente da política institucional, mas do próprio setor público. Segundo dados de 2025 do Movimento Pessoas à Frente, embora mulheres sejam maioria na administração pública, a presença feminina em cargos de liderança ainda é significativamente menor.
Resumindo: ainda estamos longe de um cenário em que mulheres tenham influência proporcional sobre as decisões que afetam suas próprias vidas. Ampliar essa presença é, portanto, fortalecer a democracia. E, sobretudo, é criar condições para enfrentar de forma mais eficaz problemas estruturais - como a violência de gênero - que não serão resolvidos sem prioridade política.
Mais mulheres na política não é, portanto, apenas uma pauta identitária. É uma agenda estratégica para um país mais justo, mais seguro e mais democrático para todas as pessoas, independente do gênero ao qual pertençam.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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