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Marina Helou
Marina Helou
Direitos digitais
3/6/2026 13:00
Ao longo da história, encíclicas papais, muitas vezes, ajudaram a pautar debates que ultrapassam os muros da Igreja Católica, influenciando os rumos políticos, sociais e principalmente a vida das pessoas (católicas ou não). Agora, ao lançar a Magnifica Humanitas, o papa Leão XIV propõe a reflexão sobre uma das questões mais urgentes do nosso tempo: os impactos do ambiente digital e a necessidade de responsabilização das plataformas tecnológicas.
É verdade que o mundo tem começado, ainda que lentamente, a encarar com mais seriedade os impactos do ambiente digital. Mesmo diante da forte resistência (e lobby!) das big techs, que têm travado uma verdadeira "cruzada" contra qualquer tipo de controle. Como de praxe, são sempre as populações mais vulneráveis que pagam o custo dessa lentidão — entre as quais eu faço questão de destacar as crianças e adolescentes.
Em um dos trechos mais fortes da encíclica, o papa afirma que "quando o interesse imediato das plataformas – concentradas nas mãos de poucos – entra em conflito com o bem-estar dos menores, é necessário opor-se-lhe com decisões públicas clarividentes". Arrisco dizer que, se o Sumo Pontífice votasse e morasse em São Paulo, seria meu eleitor. Certamente ele me perdoaria a piada, pois nosso alinhamento nessa agenda é imenso.
A frase do papa traduz algo que muitas famílias sentem na pele: existe hoje uma disputa desigual entre o cuidado com nossas crianças e um modelo de negócio baseado na captura permanente da atenção, onde o algoritmo trabalha visando unicamente o lucro. E a "tentação" é encarar esse problema como uma responsabilidade individual e doméstica, exclusiva dos pais e educadores. Mas a verdade (para muitos indigesta) é que estamos diante de um desafio público, político e coletivo.
Por isso acredito ser tão importante que uma instituição com a potência diplomática do Vaticano assuma esse debate com clareza. A encíclica coloca luz em algo que venho repetindo no parlamento estadual e em todos os lugares onde tenho oportunidade: proteger os direitos das crianças e adolescentes no ambiente digital exige responsabilidade das plataformas, participação do poder público e coragem política para estabelecer limites.
Recentemente, tive a oportunidade de participar, no Vaticano, da cúpula internacional Building Climate Resilience Legislation, promovida pela Pontifícia Academia de Ciências Sociais. Fui convidada para compartilhar experiências do nosso mandato na construção de políticas públicas voltadas à resiliência climática, adaptação urbana e proteção dos mais vulneráveis diante da crise climática. E foi impossível não perceber como esses debates estão conectados.
No encontro, defendi com convicção, ao lado de lideranças mundiais que admiro muito o trabalho, que são as crianças e os adolescentes alguns dos mais impactados por tragédias ambientais, pela precariedade urbana e pela ausência de proteção pública. Da mesma forma que são eles os mais vulneráveis diante de um ambiente digital sem regulação.
No fundo, ambas agendas nos obrigam a decidir que tipo de sociedade queremos construir. Uma sociedade em que a lógica econômica opera sem limites, mesmo quando coloca vidas em risco? Ou uma sociedade capaz de estabelecer pactos coletivos de proteção, responsabilidade e cuidado?
Em tempos de tanta violência, desigualdade e sensação de impotência, talvez o maior ensinamento da Magnifica Humanitas seja justamente este: o futuro não está pronto, ele precisa ser construído. Muito mais do que palavras ou "boas intenções", ele depende das escolhas e ações políticas, éticas e coletivas que decidirmos fazer agora.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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