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Que Copa queremos oferecer?

A competição histórica pode inaugurar uma nova forma de pensar grandes eventos: alinhada ao enfrentamento da crise climática e mais comprometida com as pessoas.

Marina Helou

Marina Helou

27/7/2026 13:00

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Em 2027, os olhos do mundo estarão voltados para o Brasil. Pela primeira vez, receberemos uma Copa do Mundo Feminina. Será um momento histórico para celebrar mulheres que desafiaram preconceitos, romperam barreiras e conquistaram, dentro e fora de campo, um espaço que lhes foi negado durante décadas. Mas fica uma pergunta antes mesmo do apito inicial: que Copa queremos oferecer ao mundo?

A resposta não está apenas nos estádios, na qualidade dos gramados ou na festa das torcidas (que temos de sobra). Ela também passa pelas cidades que receberão as partidas. Passa pela infraestrutura e, principalmente, pela forma como protegemos atletas, trabalhadores, voluntários e torcedores diante de uma realidade que já não pode ser ignorada: temos um novo clima e isso mudou as regras do jogo.

Exemplos disso são o calor extremo e as chuvas intensas. O calor extremo, que deixou de ser exceção, pode pressionar sistemas de transporte, energia e saúde; e as chuvas intensas interromperem as competições, como aconteceu neste ano em alguns jogos na Copa do Mundo de futebol masculino, nos Estados Unidos.

As cidades brasileiras conhecem essa realidade, pois, em razão de uma forte dose de falta de planejamento, são vulneráveis aos eventos extremos. Além disso, a dimensão climática segue ocupando pouco espaço quando discutimos grandes eventos esportivos.

Sediarmos a Copa do Mundo Feminina é, sem dúvida, uma oportunidade que não podemos desperdiçar. O esporte tem a capacidade de colocar luz a importantes pautas sociais. Foi assim quando o racismo deixou de ser tratado como "parte do jogo", dando vez à norma batizada de 'Lei Vini Jr. Também quando a FIFA lançou um guia internacional para orientar jogadoras durante a gravidez e o pós-parto. O fato é que hoje entendemos que igualdade não acontece do nada. Ela exige decisões políticas, investimento e responsabilidade institucional.

Com a crise climática acontece exatamente a mesma coisa. Não basta reconhecer que o planeta está mais quente. É preciso transformar esse diagnóstico em planejamento e ação concreta.

Calor extremo e chuvas intensas exigem que o Brasil trate a crise climática como prioridade na preparação do torneio e transforme o evento em um marco de resiliência urbana.

Calor extremo e chuvas intensas exigem que o Brasil trate a crise climática como prioridade na preparação do torneio e transforme o evento em um marco de resiliência urbana.Magnific

Uma Copa do Mundo organizada em um país como o nosso, tão vulnerável aos eventos extremos, deveria ser também uma referência internacional em adaptação climática. Isso significa, por exemplo, pensar horários compatíveis com ondas de calor; ampliar áreas verdes e de sombra nos entornos dos estádios e em seus principais acessos; ampliar e fortalecer sistemas de transporte público resilientes; garantir água potável; preparar protocolos de emergência; investir em infraestrutura urbana; incorporar critérios climáticos ao planejamento de cada cidade-sede; e garantir o gerenciamento adequado dos resíduos gerados por grandes eventos - tema que é tratado pela legislação que aprovamos (lei estadual 17.806/2023) e, infelizmente, segue há três anos aguardando regulamentação pelo Executivo paulista - entre outras medidas.

Engana-se quem pensa que é uma discussão apenas sobre futebol. É, na verdade, uma oportunidade para debatermos sobre a cidade e a sociedade que queremos. Porque toda ação do poder público que proteger uma torcedora durante a Copa também protegerá uma criança indo para a escola, uma pessoa idosa esperando um ônibus ou qualquer pessoa enfrentando um dia de calor extremo.

Talvez esse seja o maior legado que uma Copa possa deixar: cidades mais preparadas para cuidar das pessoas e não apenas novas arenas. Recentemente, durante minha participação no Vaticano, na cúpula Building Climate Resilience Legislation, pude compartilhar justamente essa visão: justiça climática não é uma agenda ambiental isolada. É uma agenda de proteção das pessoas, especialmente das mais vulneráveis.

Que o Brasil não seja lembrado apenas como o país que sediou a primeira Copa Feminina da América do Sul. Que seja lembrado como o país que compreendeu que cuidar do clima também é cuidar das pessoas.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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crise climática Copa do Mundo futebol Copa Feminina de 2027

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