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Educação financeira: a solução não está apenas em renegociar dívidas

Programas de alívio financeiro podem ajudar no curto prazo, mas apenas a educação financeira é capaz de romper o ciclo recorrente do endividamento.

Cris Monteiro

Cris Monteiro

11/6/2026 13:00

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A educação financeira nunca foi tão necessária no Brasil. Apesar dos avanços tecnológicos, da expansão do acesso ao crédito e da enorme quantidade de informações disponíveis na internet, milhões de brasileiros continuam enfrentando dificuldades para organizar suas finanças, planejar o futuro e evitar o endividamento. Como resultado, famílias estão cada vez mais comprometidas com dívidas, usando excessivamente o cartão de crédito, crescimento das apostas online e uma cultura de consumo imediato que muitas vezes substitui o planejamento financeiro.

Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo dados recentes da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mais de 80% das famílias brasileiras possuem algum tipo de dívida, o maior percentual já registrado pela pesquisa. Uma parcela significativa dessas famílias também possui contas em atraso e muitas afirmam não ter condições de quitar seus débitos. O cartão de crédito continua sendo o principal responsável por esse endividamento, aparecendo com ampla vantagem em relação às demais modalidades de crédito. Embora seja uma ferramenta útil quando utilizada com responsabilidade, o cartão se transformou, para muitos brasileiros, em uma extensão da renda mensal. Em vez de servir como meio de pagamento, passou a ser utilizado para financiar despesas do dia a dia, criando uma falsa sensação de capacidade financeira que frequentemente termina em juros elevados e dificuldades para fechar as contas no fim do mês.

Diante desse cenário, o governo federal lançou o programa Desenrola Brasil com o objetivo de facilitar a renegociação de dívidas e permitir que milhões de brasileiros voltassem a ter acesso ao crédito. O programa alcançou pessoas que estavam há anos negativadas, sem perspectivas de regularizar sua situação financeira. É justo reconhecer que iniciativas desse tipo podem trazer alívio imediato para famílias que enfrentam dificuldades reais. No entanto, também é necessário reconhecer que renegociar dívidas não equivale a resolver as causas do endividamento. Em muitos casos, o cidadão consegue um desconto, parcela a dívida e volta a se endividar pouco tempo depois porque os hábitos financeiros que geraram o problema permanecem inalterados.

Em um cenário de crédito fácil, apostas online e consumo imediato, compreender orçamento, planejamento e juros tornou-se uma necessidade social.

Em um cenário de crédito fácil, apostas online e consumo imediato, compreender orçamento, planejamento e juros tornou-se uma necessidade social.Mathilde Missioneiro/Folhapress

Essa realidade evidencia que não existe programa governamental capaz de substituir a educação financeira. Quando uma pessoa não compreende conceitos básicos como orçamento, planejamento, juros compostos, reserva de emergência e consumo consciente, ela permanece vulnerável aos mesmos erros, independentemente de quantas oportunidades de renegociação lhe sejam oferecidas. O combate ao endividamento exige mais do que soluções emergenciais, exige formação e mudança de comportamento.

Novos desafios surgem e ampliam os riscos para o orçamento das famílias brasileiras. Um dos mais preocupantes é a explosão das apostas online. Nos últimos anos, plataformas de apostas esportivas e jogos de azar digitais, popularmente conhecidos por nomes como "Jogo do Tigrinho", passaram a fazer parte da rotina de milhões de brasileiros. Impulsionadas por campanhas agressivas de marketing, essas plataformas frequentemente vendem a ilusão de ganhos rápidos e fáceis. Em muitos casos, pessoas comprometem parte significativa da renda familiar, utilizam limite do cartão de crédito ou até mesmo recorrem a empréstimos para continuar apostando na esperança de recuperar prejuízos anteriores. Trata-se de um ciclo extremamente semelhante ao observado em outras formas de vício financeiro.

Por isso, a educação financeira deve ser entendida como uma ferramenta de emancipação social. Ensinar uma pessoa a controlar seus gastos, diferenciar necessidades de desejos, construir uma reserva de emergência e investir para o futuro gera impactos que vão muito além das finanças. Significa aumentar sua autonomia, reduzir sua vulnerabilidade e ampliar sua capacidade de tomar decisões conscientes. Uma sociedade financeiramente educada depende menos de programas emergenciais, enfrenta melhor períodos de crise econômica e constrói condições mais sólidas para o crescimento individual e coletivo.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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