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José Dirceu
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José Dirceu
Geopolítica
23/6/2026 16:48
Se há um elemento definidor, e preocupante, da geopolítica internacional é que a fronteira entre paz e guerra tornou-se cada vez menos nítida. Hoje, um país pode ser atacado sem que um soldado estrangeiro atravesse sua fronteira: basta bloquear cadeias de suprimento, sabotar redes de energia, capturar sistemas digitais, paralisar comunicações ou ameaçar sua capacidade de decisão soberana. Vivemos uma época de guerras abertas misturadas com sanções econômicas, disputas por energia, minerais estratégicos, dados, rotas comerciais, infraestrutura digital e domínio tecnológico. São razões pelas quais a discussão sobre defesa nacional está no centro da política mundial.
Para um país como o Brasil, continental, rico em água, biodiversidade, petróleo, alimentos, minerais críticos, ciência, capacidade industrial e posição geopolítica estratégica, Defesa não pode ser tema secundário, assunto acadêmico ou debate reservado aos quartéis. Defesa é soberania, democracia e desenvolvimento. É, sobretudo, a capacidade de uma nação proteger seu território, seu povo, suas riquezas, suas instituições, suas infraestruturas críticas e sua liberdade de decidir.
O ponto de partida de qualquer política séria de Defesa deve ser a definição das ameaças reais, não das ameaças imaginárias, fabricadas por doutrinas importadas, por interesses de fornecedores externos, por inércia institucional ou por disputas burocráticas internas. A pergunta essencial é outra: o que ameaça, de fato, a soberania brasileira? A resposta passa pela Amazônia, o Atlântico Sul, o pré-sal, as fronteiras terrestres, o espaço aéreo, os cabos submarinos, as hidrelétricas, os portos, as redes digitais, os satélites, o sistema financeiro, os dados da população e a capacidade do Estado de continuar funcionando com eficácia em situações de crise. Em outras palavras, a Defesa nacional no século XXI envolve o aparato tecnológico-militar, entre tanques, navios e aviões, mas envolve também software, energia, telecomunicações, cibersegurança, inteligência artificial, logística, semicondutores, criptografia, indústria e conhecimento.
O Brasil – assim como os países emergentes de uma forma geral – não deve tentar imitar, em escala reduzida, a arquitetura militar das grandes potências. Esse é um erro recorrente de países em desenvolvimento: confundir Defesa com prestígio, grandes plataformas isoladas, compras dispersas e símbolos de poder que muitas vezes não produzem capacidade operacional real. Como observa estudo recente da CEBRI-Revista, o desafio desses países não é alcançar paridade militar com as potências, mas se tornarem difíceis de intimidar, caros de agredir, complexos de paralisar e suficientemente resistentes para preservar sua soberania. Eis aí uma chave correta para o Brasil: menos imitação, mais adequação, e menos dependência, mais inteligência estratégica.
Nossa prioridade deve ser uma defesa territorial moderna, capaz de proteger infraestruturas críticas, controlar o espaço aéreo e marítimo imediato, vigiar fronteiras, garantir presença na Amazônia, assegurar capacidade cibernética e preservar a continuidade institucional do país. Isso exige uma estratégia de dissuasão e negação. O Brasil não precisa de aventuras militares nem de projeção imperial de força. Precisa ser capaz de tornar qualquer agressão, chantagem ou tentativa de paralisação externa uma operação custosa, incerta e politicamente inviável. A pergunta decisiva é se temos meios para impedir que interesses externos imponham ao país uma decisão contrária ao interesse nacional.
A guerra da Ucrânia demonstrou que tecnologias relativamente baratas, quando integradas a sensores, dados, comunicação segura, comando eficiente e capacidade de reposição, podem neutralizar meios muito mais caros. Drones, munições guiadas, satélites comerciais, guerra eletrônica, inteligência de sinais, defesa antidrone, softwares de comando e sistemas autônomos mudaram a economia da guerra. Para o Brasil, isso abre uma oportunidade estratégica. Não podemos organizar nossa Defesa com cabeça do século passado, dependente de equipamentos importados, baixa integração tecnológica e vulnerabilidade nos pontos decisivos. Precisamos investir em vigilância persistente, sensores distribuídos, comunicações resilientes, capacidade aeroespacial, defesa cibernética, sistemas não tripulados, proteção de redes energéticas e digitais, além de uma logística capaz de sustentar operações prolongadas.
Nenhum país produz tudo sozinho, mas dependência total é vulnerabilidade. A política correta é o que especialistas chamam de uma espécie de autonomia seletiva: definir o que precisa estar sob controle nacional, o que pode ser objeto de cooperação, o que pode ser comprado no exterior com baixo risco e o que jamais pode depender integralmente de terceiros. Munição, software, manutenção, modernização, comunicações seguras, peças críticas, combustível, criptografia, dados, capacidade de reparo em crise e estoques são condições materiais da soberania. Um país que depende de autorização externa para manter seus sistemas operando não é plenamente soberano.
Por isso, Defesa é também política industrial e projeto de desenvolvimento. Uma Base Industrial de Defesa nacional, planejada pelo Estado e articulada com universidades, institutos públicos de pesquisa, empresas estratégicas, engenharia nacional, startups, telecomunicações, energia e tecnologia da informação, gera inovação, empregos qualificados, domínio tecnológico e capacidade produtiva. A fronteira entre o setor civil e o setor militar tornou-se cada vez mais porosa. Satélites, nuvem, inteligência artificial, análise de dados, plataformas autônomas, logística digital, cibersegurança e redes de comunicação são, ao mesmo tempo, instrumentos econômicos e ativos estratégicos. Quem não organiza esse ecossistema terá Forças Armadas formalmente existentes, mas tecnologicamente defasadas.
O orçamento de Defesa também precisa ser pensado de forma diferente. O problema não se resolve apenas com mais gasto, mas com melhor composição, previsibilidade e orientação estratégica. O orçamento deve ser orientado por efeitos concretos, entre os quais proteger infraestrutura energética, garantir vigilância de fronteiras, defender redes digitais, assegurar comunicações, sustentar operações prolongadas, preservar mobilização industrial e ampliar a consciência situacional do Estado brasileiro.
Nunca será demais reforçar que essa agenda deve estar rigorosamente submetida à Constituição e ao poder civil. As Forças Armadas têm papel importante na defesa da soberania, mas não são Poder Moderador, tampouco tutela da República. E como tal não podem agir como partido fardado. A esquerda e as forças democráticas precisam disputar o sentido da Defesa exatamente para impedir que o tema fique prisioneiro do autoritarismo, da doutrina do inimigo interno ou do alinhamento automático a interesses estrangeiros. Defender soberania exige Forças Armadas profissionais, republicanas, modernas, subordinadas ao presidente da República e integradas a um projeto democrático de país.
Esse debate é ainda mais relevante em tempos de trumpismo e ameaça da extrema-direita internacional. Donald Trump recolocou no centro da política mundial a coerção econômica, as sanções, a guerra comercial, a ameaça militar, a manipulação informacional e o ataque ao multilateralismo. Como o presidente norte-americano já deixou claro como sua doutrina, a América Latina voltou a ser tratada como área de influência, rica em recursos naturais e estratégica na disputa global. O Brasil não pode aceitar tutela, chantagem ou submissão. Nossa tradição deve continuar sendo a defesa da paz, da autodeterminação dos povos, da não intervenção, da integração regional e da solução negociada dos conflitos. Mas a paz exige soberania. E soberania exige capacidade real de defesa.
O Brasil não quer ameaçar ninguém, mas precisa deixar claro que não aceitará ser ameaçado, tutelado, intimidado ou paralisado. É estratégia no lugar do militarismo, e a dissuasão no lugar de aventuras. Não precisamos copiar modelos estrangeiros, mas construir uma arquitetura própria, adequada à nossa geografia, às nossas riquezas, à nossa base industrial e aos desafios de um mundo em transformação. Defender a democracia, no século XXI, é defender também a soberania tecnológica, digital, energética, territorial e militar do Brasil. Essa tarefa deve ser assumida como parte inseparável de um projeto nacional, democrático e popular.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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