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Ele morreu na ante-sala da UPA: a próxima vítima da crise da saúde no DF pode ser qualquer um de nós

A morte de um paciente em uma UPA expõe falhas de gestão, baixa execução orçamentária e a urgência de reconstruir a capacidade de atendimento do SUS no Distrito Federal.

Michel Platini

Michel Platini

6/7/2026 15:00

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A morte de um homem após permanecer mais de 12 horas na antessala de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Distrito Federal não pode ser tratada como uma fatalidade, um acaso ou um evento imprevisível. Ela é o resultado direto de uma crise anunciada, construída ao longo de anos por decisões equivocadas, falta de planejamento, ausência de investimentos estratégicos, déficit de profissionais e, principalmente, por uma gestão incapaz de transformar recursos públicos em serviços de saúde efetivamente prestados à população. As imagens que chocaram Brasília mostram muito mais do que a tragédia de uma única pessoa; elas revelam o retrato de um sistema que está falhando justamente quando as pessoas mais precisam dele.

A pergunta que precisa ser feita não é apenas o que aconteceu naquele plantão, mas como o Distrito Federal chegou ao ponto de permitir que um cidadão morresse esperando atendimento dentro de uma unidade de saúde. A resposta passa inevitavelmente pela situação financeira e administrativa da saúde pública. Nos últimos meses, trabalhadores, usuários do SUS, entidades representativas, órgãos de controle e o próprio Conselho de Saúde do Distrito Federal vêm alertando para o agravamento da crise assistencial. O Ministério Público de Contas do Distrito Federal apontou que o Governo do Distrito Federal promoveu um contingenciamento de R$ 1 bilhão em 2025, dos quais R$ 420,7 milhões atingiram a saúde e R$ 415,9 milhões recaíram diretamente sobre o Fundo de Saúde do Distrito Federal. Isso significa que mais de 42% de todo o contingenciamento realizado pelo governo atingiu exatamente a área responsável por salvar vidas. Mais grave ainda, enquanto a educação sofreu bloqueios equivalentes a aproximadamente 0,5% de sua dotação orçamentária, a saúde teve cerca de 10,7% de seus recursos contingenciados.

Mas existe uma realidade ainda mais preocupante e que ajuda a explicar por que a crise não pode ser atribuída apenas à falta de dinheiro. Os dados apresentados pela própria Diretoria Executiva do Fundo de Saúde ao Conselho de Saúde demonstram que existem recursos disponíveis que não estão sendo transformados em atendimento para a população. O próprio Secretário de Economia afirmou que a Secretaria de Saúde possui recursos represados, levantando uma pergunta que até hoje não foi respondida de forma convincente: se existem recursos disponíveis, por que eles não estão sendo executados?

Os números apresentados ao Conselho revelam uma situação alarmante. Na subfunção Administração Geral, havia mais de R$ 1,19 bilhão autorizados, mas apenas cerca de R$ 464 milhões haviam sido efetivamente pagos. Na Assistência Hospitalar e Ambulatorial, área que concentra boa parte do atendimento prestado à população, os valores autorizados ultrapassam R$ 2,2 bilhões, mas os pagamentos realizados permanecem muito abaixo da capacidade financeira disponível. Na Atenção Básica, que deveria funcionar como porta de entrada e principal instrumento de prevenção e acompanhamento dos usuários do SUS, também existem diferenças expressivas entre os valores autorizados, empenhados, liquidados e efetivamente pagos. Em outras palavras, existe dinheiro que não chega ao cidadão porque fica preso na burocracia, na lentidão administrativa e na incapacidade de execução da gestão.

Recursos represados, déficit de profissionais e dificuldades de gestão ajudam a explicar o colapso que levou um paciente a morrer enquanto aguardava atendimento.

Recursos represados, déficit de profissionais e dificuldades de gestão ajudam a explicar o colapso que levou um paciente a morrer enquanto aguardava atendimento.José Cruz/Agência Brasil

Enquanto recursos permanecem parados, faltam médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, psicólogos, farmacêuticos e outros profissionais essenciais. Enquanto recursos deixam de ser executados, faltam leitos, medicamentos, insumos e condições adequadas de trabalho para quem está na linha de frente. Enquanto a máquina pública não consegue transformar orçamento em assistência, a população continua enfrentando filas, superlotação, demora no atendimento e situações cada vez mais dramáticas.

Essa realidade ficou evidente mais uma vez no próprio Conselho de Saúde do Distrito Federal. No dia 23 de junho, poucos dias após a morte que chocou a população, uma resolução que apresentei ao Conselho recomendando a recomposição dos recursos da saúde, a realização de concursos públicos, o fortalecimento da força de trabalho do SUS, a garantia do pagamento de horas extras e Trabalho por Período Determinado (TPD), o aperfeiçoamento da execução dos recursos do Fundo de Saúde e a responsabilização de gestores sequer pôde ser votada. A reunião foi esvaziada e terminou sem quórum. Na avaliação de diversos conselheiros, houve uma clara movimentação da gestão para impedir que o Conselho de Saúde se posicionasse formalmente contra o contingenciamento e contra o atual modelo de condução da saúde pública. O simbolismo é devastador: enquanto a população presencia mortes evitáveis e sofre diariamente com a precarização dos serviços, até mesmo os espaços de controle social encontram obstáculos para discutir soluções.

Depois de quase oito anos sob a mesma orientação política, os resultados precisam ser avaliados pelos fatos. E os fatos são incontestáveis: UPAs superlotadas, hospitais operando acima da capacidade, filas intermináveis para consultas e exames especializados, dificuldades na saúde mental, déficit de profissionais e baixa capacidade de execução dos recursos disponíveis. A morte desse cidadão não representa apenas uma tragédia individual; ela simboliza o esgotamento de um modelo de gestão que já demonstrou seus limites.

Nenhuma gestão pode ser considerada bem-sucedida quando pessoas morrem aguardando atendimento dentro de unidades de saúde. Nenhum governo pode se eximir da responsabilidade quando os alertas se acumulam e os problemas persistem. Por isso, a solução não está apenas na recomposição dos recursos, embora ela seja necessária. A solução passa por uma profunda reestruturação da Secretaria de Saúde, pela substituição da atual equipe gestora, pela realização de um diagnóstico rigoroso da execução orçamentária, pela revisão dos processos administrativos que impedem a utilização eficiente dos recursos disponíveis, pela realização de concursos públicos e pela construção de um modelo de gestão baseado em planejamento, metas, transparência e resultados.

Experiências bem-sucedidas em diversos sistemas de saúde demonstram que recursos financeiros são indispensáveis, mas não suficientes. Sem governança, capacidade de execução e gestão eficiente, o dinheiro não chega ao cidadão. É exatamente esse debate que precisa ser feito no Distrito Federal. A morte daquele homem na antessala da UPA não foi apenas uma fatalidade. Foi um alerta sobre o preço da omissão, sobre o custo humano da má gestão e sobre as consequências de um sistema que deixou de responder às necessidades da população. Nenhuma sociedade deveria aceitar isso como normal. Porque hoje foi aquele cidadão. Amanhã pode ser qualquer um de nós.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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