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Eleições 2026: Razões do meu voto

Entre críticas ao atual governo e a volta do bolsonarismo, democracia, políticas públicas e proteção social pesam na escolha pela reeleição do presidente.

Ricardo de João Braga

Ricardo de João Braga

8/9/2026 12:30

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Um colega inteligente e respeitoso questionou-me sobre algo que eu teria escrito em 2022, a importância da alternância de poder. A questão põe-se assim: então eu justificara a saída de Bolsonaro dessa forma. Como eu defenderia hoje um novo voto no presidente Lula, governo ao qual ele tem críticas?

Mais que justo, discutir as razões do voto de forma civilizada consiste em uma obrigação cívica, base da democracia representativa. Por isso apresento a seguir minha visão do pleito atual em um ponto contextual e três substantivos.

Não há espaço, em 2026, para nomes alternativos. O quadro eleitoral vai afunilar a eleição para a disputa Lula versus Flávio Bolsonaro. A famosa polarização garante a cada uma dessas duas candidaturas algo superior a 30% dos votos, o que lhes coloca no segundo turno. Então, é essa eleição que interessa.

Indicadores financeiros do governo federal.

Indicadores financeiros do governo federal.Magnific

Primeiro ponto substantivo: Flávio Bolsonaro apresenta-se como um seguidor do governo de seu pai, governo e grupo político que atentou contra a democracia. A meu ver este é um valor civilizatório básico, o respeito ao nosso sistema democrático, sem o qual nenhum avanço pode ocorrer.

O segundo ponto é a crise fiscal, hoje apresentada como cria necessária do PT. Um olhar histórico permite ver qualitativamente a situação de forma diferente.

O governo militar desde 1968-1969 contornou os problemas fiscais produzindo inflação (conta movimento, orçamento monetário, despesas não controladas de estatais etc.). O expediente manteve-se até João Figueiredo e foi adotado pelos civis Sarney e Collor. O imposto inflacionário – que cobra dos mais pobres a perda de poder aquisitivo do dinheiro que eles não conseguiam proteger – a administração das despesas na boca do caixa e um efeito Oliveira-Tanzi particular (que indexava a arrecadação de impostos e corroía as despesas definidas em valores nominais) "resolviam" o problema.

Fernando Henrique Cardoso solucionou genialmente o problema da inflação, merecendo elogios e a eleição, mas governou de 1995 a 1998 sob uma âncora cambial que levou a juros altíssimos e explosão da dívida pública. Reeleito, criou as metas de inflação e um arcabouço mínimo de equilíbrio fiscal. Contudo, ao mostrar-se eleitoralmente competitivo e vencer a eleição de 2002, Lula tanto assumiu o compromisso da famosa Carta ao Povo Brasileiro quanto realizou superávits fiscais robustos nos primeiros anos do governo. Ao longo do período Lula-Dilma, contudo, as despesas aumentaram mais que as receitas e novamente tivemos problemas fiscais.

Michel Temer assumiu o governo e criou o "teto de gastos". Contudo, tais limites aplicar-se-iam ao governo de seu sucessor, que foi Bolsonaro. Este, que lidou com a pandemia e um governo sem plano de trabalho claro, não conseguiu debelar os déficits, mesmo os produziu maiores.

Lula 3 revogou o teto de gastos, colocou um sistema de ajustes dinâmicos em seu lugar e ao longo do tempo – assim como todos os governos no passado – criou ao sabor da conveniência política muitas exceções aos controles.

Indicadores financeiros do governo federal.

Indicadores financeiros do governo federal.Elaborado pelo autor

O gráfico apresentado mostra a evolução dos resultados financeiros do governo central (pagamentos de juros entram com sinal negativo). Com honestidade intelectual torna-se extremamente difícil alguém creditar às variáveis direita e esquerda nossos resultados. Uma resposta mais realista certamente deve considerar o quadro da economia mundial e nacional, um certo irrealismo da meta de inflação (que leva a juros muito altos) e uma postura generalizada de nossa classe política em despreocupar-se do equilíbrio fiscal.

Nossa história mostra então que não são o PT ou Lula que nos põem a perder em questões fiscais. Eles erram na essência como todos os outros governantes brasileiros; varia entre eles apenas as aparências e a cobertura jornalística. E nessa variação incide uma perspectiva qualitativa.

Se todos erram, a questão é como erram. Então fica claro que enquanto os erros da direita vêm acompanhados de privatizações e desregulamentação de proteções trabalhistas, o PT diz que não privatiza, mantém salário mínimo com ganho real e não diminui direitos trabalhistas.

Para um economista que tenha formação de cientista social, que tenha conseguido fugir do empuxo gravitacional do lenga-lenga da ciência neutra, da "pureza" de intenções do mainstream, concluímos que nossa realidade fiscal cambaleante impõe-se e é aceita pela classe política e elites. A questão é quem paga o preço dos arremedos de ajustes (arremedos, pois não consertam de fato). E importante para um momento eleitoral, quanto o problema fiscal pode ser utilizado como fonte de pânico e terror sobre o eleitor.

Vale dizer que o candidato Flávio Bolsonaro não avança para além de afirmações genéricas sobre controle de despesas e já se comprometeu inclusive a manter gastos sociais, ao contrário da cartilha do "mercado" (essa entidade elusiva e bem concreta e pessoal merece um artigo à parte) que lhe tiraria votos importantes.

Por fim, o terceiro ponto substantivo são as políticas públicas.

Se Flávio Bolsonaro apresenta-se como seguidor do governo de seu pai, deve-se considerar sua negligência, e mesmo sabotagem, com algumas políticas públicas essenciais como saúde, educação e meio ambiente.

Diante da pandemia o governo federal omitiu-se na coordenação dos esforços do SUS, manietou-se na informação e conscientização necessária da população e prevaricou com a campanha de vacinação. No momento de mais necessidade, foi isso que Bolsonaro impôs ao SUS. Não é preciso dizer mais.

Na educação escolheu ministros orgulhosos de atuarem para destruir o que décadas de esforço interfederativo vinham construindo. Movidos por agendas ideológicas amalucadas, rebaixaram o Ministério da Educação à subserviência aos caprichos do presidente, abandonando suas obrigações com a construção de políticas públicas.

A questão ambiental por um lado recebeu o negacionismo ignorante e por outro a porta aberta ao banditismo. Acordos climáticos sofreram sabotagens (como as fórmulas de cálculo questionáveis das Contribuições Nacionalmente Determinadas) e escancararam Amazônia e Cerrado ao desmatamento e garimpo ilegal.

Políticas públicas são a chance de a sociedade como ente pensante e organizado tentar organizar seu futuro. Bolsonaro abdicou disso para implantar a lei do mais forte. A disputa foi entre civilização e barbárie.

Por fim, se tudo isso me faz um eleitor entusiasmado de Lula, posso dizer que não. Faz-me um eleitor realista com o que esperar do Estado, reconhecendo os desafios presentes e os erros do governo atual. Mas acima de tudo convoca-me os valores: democracia, civilidade e responsabilidade com a questão pública.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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