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Ricardo de João Braga
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Igualdade versus desigualdade: a verdade por detrás da fachada
Ricardo de João Braga
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Ricardo de João Braga
Política
6/11/2026 13:00
Direita, apenas. Este é o termo que parte da imprensa tem utilizado para adjetivar Flávio Bolsonaro, seu movimento que buscou a presidência da República e vários políticos eleitos e não eleitos que dividiram palco, discurso e projeto com o candidato. Talvez os jornalistas ajam por desconhecimento ou, talvez, intenção deliberada. Todos nós, contudo, precisamos ser claros e denominar o movimento bolsonarista pelo que realmente é, um movimento de extrema direita.
Afif Domingos, Fernando Collor, Espiridião Amin, Geraldo Alckmin, João Amoêdo, para lembrar de alguns nomes, foram claramente presidenciáveis de direita em seu tempo, direita apenas (mesmo Collor não apresentava um projeto de desmontagem da Constituição democrática). Não há dúvida, o bolsonarismo dista léguas desses candidatos em método, ideologia e propósito. Igualá-los todos como "direita" normaliza a versão "extrema".
Cabe alertar, com ênfase, que uma das principais estratégias da extrema direita na luta e conquista do poder consiste na "normalização", isto é, na disseminação gradual e estratégica de ideias que em um primeiro momento causam repulsa na sociedade, mas posteriormente tornam-se parte da paisagem e enfim são aceitas. Normalizar é abrir a porta ao inaceitável, por um processo pouco perceptível.
Cas Mudde, uma das maiores referências mundiais no estudo da extrema direita, assim classifica: extrema direita - gênero de duas espécies, a radical e a ultrarradical.
Os fundamentos ideológicos das duas espécies são comuns:
A destruição das instituições, o nós contra eles, o confronto, a transformação do outro em inimigo são da essência da extrema direita.
As duas espécies, radical e ultrarradical, não obstante, distinguem-se por algumas características. A radical aceita a essência da democracia em sua forma plebiscitária, enquanto a ultrarradical rechaça a soberania popular e abraça a lógica do Führerprinzip (o líder é a nação, é o Estado, e exige obediência). Apenas para deixar mais claro, o neonazismo é a ultrarradical, as democracias plebiscitárias que atacam minorias e o equilíbrio de poderes, a radical.
Considerada a classificação de Cas Mudde, não há dúvidas que o bolsonarismo é extrema direita.
O bolsonarismo já tentou um golpe contra a democracia em 2023; movimento de feição clássica que gera o caos e clama pela intervenção militar. Diríamos que se tratava de uma tentativa de quebra democrática à moda antiga. Dia 25 de outubro passado utilizou-se da dificultação do direito de voto (a retirada dos ônibus em circulação) e pusilanimidade da Justiça, mecanismos também identificados pela literatura da área (LEVITSKY, Steven; ZIBLATT, Daniel. 2018. Como as Democracias Morrem) como estratégias da extrema direita – agora a contemporânea – para erodir a democracia. Com variações apenas de forma, ambos os ataques objetivam a mesma coisa, suprimir a democracia.
Nossa extrema direita tupiniquim, salta aos olhos, rejeita os direitos de minorias, o Estado de Direito e a separação de poderes. Gays, lésbicas, negros, nordestinos, quilombolas, indígenas e outras minorias são vistos como inferiores, imorais, deploráveis e assim os bolsonaristas tentam tratá-los. Direitos destes mesmos grupos, suas garantias legais, também são atacados — cotas seriam "privilégios", programas sociais idem.
Os ouvidos brasileiros que cansaram de ouvir atentados às "quatro linhas da Constituição" durante a presidência de 2019 a 2022, foram brindados agora em outubro de 2026 com a promessa de "mudar a Constituição" para garantir de fato a "liberdade" e a "democracia". Suspeito que ali se apresentava latente o projeto de dominação de um poder sobre os outros, de fato o oposto de liberdade e democracia.
O país do fato óbvio ululante da extrema direita se defronta com os contorcionismos mentais do duplo twist carpado de quem não quer enxergá-lo. Trata-se de extrema direita. Cas Mudde não teria dúvidas e nós também não temos o direito de tê-la.
Normalizar o movimento bolsonarista como se fosse apenas mais uma direita trai a direita democrática que já teve raízes em nosso país e sobretudo arrisca o futuro do Brasil. Tratá-lo como algo normal engana os milhões de eleitores que procuram alternativas conservadoras, mas não desejam ataques ao Estado Democrático de Direito. A imprensa tem o dever de informar ao cidadão sobre o projeto político que avança em nosso país, felizmente contido ao nível presidencial agora em 2026. É preciso chamá-la pelo nome: extrema direita. Todos devem fazê-lo para reconhecê-la e enfrentá-la.
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