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LIVRE COMÉRCIO

Congresso começa a votar acordo Mercosul-UE; veja o que está em jogo

Tratado negociado por mais de 20 anos cria uma das maiores áreas de livre comércio do mundo. Texto reduz tarifas, amplia acesso ao mercado europeu e impõe compromissos ambientais.

Congresso em Foco

22/2/2026 7:00

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Após duas décadas de negociações, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia entrou na fase decisiva no Brasil: a análise pelo Congresso Nacional. A Representação Brasileira no Parlamento do Mercosul deve retomar na próxima quinta-feira (26) a discussão do chamado Acordo Provisório de Comércio, enviado ao Legislativo pela Mensagem 93/2026. O documento reúne mais de 4 mil páginas.

O relatório foi apresentado no último dia 11 pelo deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP), presidente da representação. Se aprovado no colegiado, o texto seguirá para o Plenário da Câmara e, depois, para o Senado.

Assinado em 17 de janeiro, em Assunção, o tratado cria uma área de livre comércio entre os dois blocos, que juntos somam cerca de 720 milhões de pessoas e aproximadamente um quarto do PIB mundial. Trata-se de uma das maiores zonas comerciais já negociadas pelo Mercosul.

Acordo foi negociado por 20 anos, mas ainda depende de ratificações para entrar em vigor.

Acordo foi negociado por 20 anos, mas ainda depende de ratificações para entrar em vigor.Arte Congresso em Foco

O que prevê o acordo

O tratado possui 23 capítulos e regula temas centrais do comércio internacional, como:

  • redução gradual de tarifas de importação;
  • regras para serviços e investimentos;
  • compras governamentais;
  • propriedade intelectual;
  • normas sanitárias e técnicas;
  • sustentabilidade;
  • solução de controvérsias.

Com base nas normas da Organização Mundial do Comércio (OMC), o texto estabelece como objetivos ampliar e diversificar o comércio de bens e serviços, aumentar a segurança jurídica para empresas e investidores e incentivar o desenvolvimento sustentável.

O acordo também preserva a autonomia regulatória dos países, garantindo que cada Estado mantenha o direito de legislar em áreas como saúde pública, meio ambiente e proteção social.

Redução de tarifas e produtos sensíveis

No capítulo sobre comércio de bens, as partes assumem o compromisso de eliminar ou reduzir tarifas de forma gradual. Em alguns casos, o cronograma pode chegar a 30 anos.

Produtos considerados "sensíveis" para determinadas economias terão tratamento diferenciado, com prazos maiores de adaptação ou exclusão parcial da liberalização.

O texto também proíbe a criação de novas tarifas ou o aumento das existentes para produtos abrangidos pelo acordo, salvo exceções previstas.

Regras comerciais e defesa

O tratado impede restrições quantitativas à importação e exportação, exceto nas hipóteses já autorizadas pelas normas internacionais.

Também estabelece regras sobre:

  • subsídios agrícolas;
  • medidas de defesa comercial, como sobretaxas em caso de prática desleal;
  • critérios de origem para que produtos possam usufruir das vantagens tarifárias.

Há ainda mecanismos formais para solução de controvérsias, com consultas e painéis independentes.

Serviços, compras públicas e investimentos

O acordo prevê abertura gradual em setores de serviços e amplia condições para empresas atuarem no território da outra parte.

No campo das compras governamentais, empresas de um bloco poderão disputar licitações públicas do outro, com regras de transparência e igualdade de tratamento. Os países terão prazo para adaptar seus sistemas às novas normas.

O texto também disciplina a circulação de capitais vinculados a investimentos e pagamentos correntes, com previsão de medidas de proteção em caso de dificuldades econômicas graves.

Sustentabilidade e meio ambiente

No capítulo sobre comércio e desenvolvimento sustentável, o acordo vincula a ampliação do comércio ao respeito a compromissos ambientais e trabalhistas.

O tratado reafirma compromissos internacionais, como o Acordo de Paris, e prevê cooperação em temas como mudanças climáticas, preservação da biodiversidade e uso responsável de recursos naturais.

Impactos e controvérsias

No Brasil, setores do agronegócio avaliam que o acordo pode ampliar exportações de carne, açúcar, etanol, café e outros produtos.

Parte da indústria, por outro lado, manifesta preocupação com o aumento da concorrência europeia, especialmente nos setores automotivo, químico e de máquinas.

Na Europa, produtores rurais pressionam por garantias ambientais adicionais e expressam temor de concorrência com alimentos sul-americanos.

Economistas avaliam que o impacto no PIB brasileiro tende a ser moderado no curto prazo, mas pode crescer no médio e longo prazos, dependendo da capacidade de o país ampliar competitividade e integrar-se a cadeias globais.

Após análise na Representação Brasileira no Parlamento do Mercosul, o texto será submetido ao Plenário da Câmara e, posteriormente, ao Senado. Após aprovação, é promulgado pelo Executivo.

Divisões: quem ganha e quem perde

Estimativas do governo brasileiro e de estudos divulgados durante a fase final das negociações apontam que o acordo pode ampliar de forma significativa o comércio bilateral ao longo da próxima década. Projeções oficiais indicam aumento potencial de bilhões de dólares nas exportações brasileiras, sobretudo em produtos agropecuários como carne bovina, açúcar, etanol e café.

No setor industrial, a redução gradual de tarifas pode beneficiar segmentos como autopeças e máquinas, mas também intensificar a concorrência. Como exemplo prático, tarifas hoje aplicadas a automóveis europeus, que podem chegar a 35%, seriam eliminadas progressivamente ao longo de até 15 anos. Já no caso da carne bovina, o acesso ao mercado europeu se dará por meio de cotas com tarifa reduzida, ampliando o volume exportável dentro de limites previamente negociados.

No plano político interno, o acordo divide setores do Congresso e da economia. Bancadas ligadas ao agronegócio tendem a apoiar a ratificação, destacando a ampliação de mercado e a previsibilidade regulatória. Parte da indústria, por outro lado, pressiona por salvaguardas e prazos de adaptação mais longos, temendo perda de competitividade frente a produtos europeus.

Parlamentares da oposição também levantam preocupações ambientais e trabalhistas, questionando se o Brasil conseguirá cumprir as exigências de sustentabilidade previstas no tratado. Esse embate deve marcar a tramitação no Legislativo, onde o acordo precisa ser aprovado por maioria simples antes da ratificação final pelo Executivo.

Resistência na Europa

O acordo enfrenta resistência em alguns países da União Europeia, especialmente na França, Irlanda e Áustria. Produtores rurais e setores agrícolas desses países temem a concorrência de carnes e produtos agrícolas do Mercosul, considerados mais competitivos.

Além disso, governos europeus pressionam por garantias ambientais mais rigorosas, citando preocupações com desmatamento e cumprimento de metas climáticas. A combinação de interesses econômicos e agenda ambiental tem dificultado a ratificação plena do tratado no bloco europeu.

Onde o acordo precisa ser aprovado?

O acordo Mercosul-União Europeia ainda depende de ratificação para entrar em vigor. A aprovação ocorre em duas frentes:

No Mercosul

Cada país do bloco precisa aprovar o tratado segundo suas regras internas.

O Mercosul é composto por 4 membros plenos:

  • Brasil
  • Argentina
  • Paraguai
  • Uruguai

(Integrante do bloco, a Venezuela está suspensa)

Na União Europeia

A União Europeia tem 27 países-membros.

A tramitação depende da natureza jurídica do acordo:

  • Se for tratado exclusivamente comercial (competência da UE), basta aprovação pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho da União Europeia (que representa os governos).
  • Se incluir matérias de competência compartilhada (como investimentos e outras áreas), o acordo pode ser considerado "misto", exigindo também aprovação pelos parlamentos nacionais dos 27 países-membros. Tradicionalmente, acordos amplos como esse passam por ratificação nacional.

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Pedido de vista adia votação do acordo Mercosul-União Europeia

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Mercosul agricultura agronegócio indústria arlindo chinaglia relações comerciais tarifas União Europeia acordos internacionais economia meio ambiente Mercosul-UE

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