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REDUÇÃO DA JORNADA
Congresso em Foco
19/5/2026 13:48
A escala 6x1 foi apontada por especialistas, representantes de trabalhadores e empresários como um modelo que adoece, reduz a convivência familiar e não garante maior produtividade. Em audiência pública na Câmara, convidados defenderam a redução da jornada de trabalho, sem corte salarial, como medida de saúde pública, modernização das relações trabalhistas e promoção de dignidade.
O debate ocorreu na comissão especial que analisa propostas para reduzir a jornada semanal e acabar, na prática, com o modelo de seis dias de trabalho por um de descanso. Entre os principais argumentos apresentados estão o aumento da exaustão, da ansiedade, da depressão, dos acidentes de trabalho e da dificuldade de conciliar emprego, família e cuidados pessoais.
A audiência foi realizada um dia após a comissão receber representantes do empresariado, que criticaram a redução da jornada de trabalho e apontaram riscos para o setor econômico caso as mudanças sejam aprovadas. O relator da proposta que trata do assunto, deputado Leo Prates (Republicanos-BA), deve apresentar seu parecer nesta quarta-feira (20). A votação está prevista para o dia 26.
Um dia de folga não garante descanso real
A crítica mais recorrente foi a de que o único dia de descanso da escala 6x1 não é suficiente para a recuperação física e mental do trabalhador. A folga, segundo os convidados, costuma ser consumida por tarefas domésticas, deslocamentos, cuidados familiares, consultas médicas e outras obrigações acumuladas durante a semana.
A advogada trabalhista Denise Rodrigues Pinheiro afirmou que a discussão vai além da organização das empresas. Segundo ela, a escala 6x1 afeta diretamente a saúde, a dignidade humana, a proteção da família e a qualidade de vida. Jornadas prolongadas, disse, estão associadas a fadiga, privação de sono, dores musculares, ansiedade, depressão e maior risco de acidentes.
"Um dia de descanso não é o suficiente para a restauração física e psíquica do trabalhador", afirmou.
O procurador-geral do Ministério Público do Trabalho, Gláucio Araújo de Oliveira, ressaltou que a redução da jornada deve ser vista como forma de evitar o adoecimento em massa. Ele citou categorias submetidas a jornadas extenuantes, como trabalhadores do corte da cana e do transporte de cargas, entre outros.
Saúde mental entrou no centro do debate
A vice-presidente do Conselho Federal de Psicologia, Thessa Laís Pires e Guimarães, defendeu que não há política séria de saúde mental sem enfrentar a forma como o trabalho é organizado. Para ela, tratar ansiedade, depressão e burnout sem discutir jornadas extensas significa atuar apenas sobre os sintomas.
O coordenador técnico do Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisas de Saúde e Ambiente de Trabalho (Diesat), Eduardo Bonfim da Silva, reforçou que o debate não trata apenas de horas trabalhadas, mas de tempo de vida. Ele afirmou que comerciários, operadores de telemarketing, trabalhadores de aplicativos e pessoas em ocupações precarizadas sentem de forma mais intensa os efeitos da exaustão.
Segundo ele, mulheres, trabalhadores negros e pessoas de menor renda estão entre os mais atingidos, por acumularem longos deslocamentos, trabalho doméstico não remunerado e menor poder de negociação sobre a própria rotina.
Redução da jornada pode elevar produtividade
Os defensores do fim da escala 6x1 também rebateram o argumento de que a redução da jornada prejudicaria a economia. A empresária Isabela Raposeiras, CEO do Coffeelab, afirmou que empresas já perdem dinheiro com rotatividade, faltas, atestados, erros e baixa produtividade provocados pelo cansaço. "Essa é só uma questão de gestão."
Segundo ela, escalas mais humanas podem reduzir custos e melhorar resultados. Trabalhadores descansados tendem a errar menos, faltar menos e produzir melhor em menos tempo. Isabela relatou experiências com escalas 5x2 e 4x3 que, segundo ela, resultaram em aumento de faturamento, queda nas ausências e melhora da lucratividade.
O pesquisador Vitor Filgueiras, da Fundacentro, também associou a redução da jornada ao aumento da eficiência. Para ele, limitar a exploração do tempo de trabalho obriga empresas a buscar inovação e ganhos reais de produtividade, em vez de depender da intensificação da jornada. "É uma oportunidade histórica."
Impacto sobre mulheres e trabalhadores rurais
A dupla jornada feminina apareceu como um dos pontos centrais da audiência. Gláucio Araújo de Oliveira afirmou que o fim da escala 6x1 daria às trabalhadoras mais tempo para cuidar dos filhos, da casa, da própria saúde e de obrigações pessoais.
A coordenadora de Justiça Social e Econômica da Oxfam Brasil, Carolina Lima Gonçalves, chamou atenção para os trabalhadores rurais assalariados. Segundo ela, esses profissionais enfrentam jornadas intensas, exposição ao sol, efeitos da emergência climática e contato frequente com agrotóxicos.
Nos períodos de plantio e colheita, disse Carolina, a jornada pode se tornar extenuante e desumana, com forte desgaste físico e psicológico.
Mudança deve ocorrer sem corte salarial
Os convidados defenderam que a redução da jornada seja feita sem redução de salários. Para eles, cortar remuneração anularia parte dos efeitos positivos da proposta, especialmente entre trabalhadores de baixa renda, que poderiam ser obrigados a buscar mais de um emprego.
Também houve defesa de diálogo com categorias e setores econômicos para organizar a transição. O procurador-geral do MPT, Gláucio Araújo, afirmou que a negociação coletiva pode ajudar a adaptar a mudança às diferentes realidades produtivas, desde que preserve o objetivo central: reduzir o tempo de trabalho e proteger a saúde dos trabalhadores.
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