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PRESSÃO NO CONGRESSO

Projetos de piso salarial saltam de 20 para 110 em oito anos

Só sete categorias tiveram mudanças convertidas em lei; valorização profissional esbarra no impacto sobre governos e empresas e na falta de fonte de custeio. Veja as categorias com projetos mais avançados.

Congresso em Foco

27/7/2026 7:00

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O Congresso vive uma corrida por pisos salariais. Médicos, dentistas, psicólogos, farmacêuticos, jornalistas, advogados, motoristas, garis, garçons, coveiros, frentistas, recepcionistas, assistentes sociais e profissionais da educação estão entre as categorias contempladas por projetos que criam ou atualizam remunerações mínimas.

O volume mudou de escala a partir de 2019. De acordo com levantamento do Congresso em Foco, Câmara e Senado receberam 20 projetos entre 2015 e 2018, 90 na legislatura seguinte e 110 desde 2023. O avanço é puxado pelos deputados, responsáveis por 92 das iniciativas apresentadas na atual legislatura.

Apresentação de propostas que criam despesas mas não apresentam fonte de custeio é um dos principais entraves ao avanço dos pisos salariais.

Apresentação de propostas que criam despesas mas não apresentam fonte de custeio é um dos principais entraves ao avanço dos pisos salariais.Arte Congresso em Foco

A multiplicação dos textos reflete a mobilização de categorias que reivindicam proteção contra salários baixos, perda de poder de compra e diferenças regionais. Entidades profissionais também argumentam que os pisos ajudam a atrair e manter trabalhadores em atividades essenciais, sobretudo em cidades pequenas e regiões com escassez de mão de obra.

No Senado, a defesa do novo piso de médicos e cirurgiões-dentistas seguiu essa linha. Em 10 de junho, a Comissão de Assuntos Sociais aprovou, em caráter terminativo, projeto que eleva de R$ 3.636 para R$ 13.662 a remuneração mínima das duas categorias para uma jornada semanal de 20 horas. Seus defensores sustentam que a valorização pode reduzir a precarização dos vínculos e estimular a permanência de profissionais em áreas remotas.

A proposta poderia seguir diretamente para a Câmara, mas um recurso apresentado por senadores governistas levou o texto ao Plenário. Agora, precisará ser votado pelos 81 senadores antes de concluir a tramitação na Casa.

Levantamento mostra salto expressivo no número de propostas de piso salarial nas duas últimas legislaturas.

Levantamento mostra salto expressivo no número de propostas de piso salarial nas duas últimas legislaturas.Arte Congresso em Foco

Poucos chegam ao fim

A profusão de propostas contrasta com o baixo número de aprovações. Nos últimos 16 anos, mudanças concluídas pelo Congresso alcançaram sete categorias, algumas contempladas pela mesma norma: agentes comunitários de saúde, agentes de combate às endemias, enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, parteiras e profissionais do magistério público da educação básica.

Outras dez aparecem em projetos que venceram ao menos uma etapa decisiva: zootecnistas, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, assistentes sociais, garis, médicos, cirurgiões-dentistas e profissionais técnicos, administrativos e operacionais da educação básica. Nesses casos, as propostas já foram aprovadas por pelo menos uma das duas Casas.

O avanço é desigual. O texto dos zootecnistas concluiu a votação no Congresso e foi enviado à sanção presidencial. Caberá ao presidente Lula decidir se converte em lei a proposta que prevê para a categoria piso de seis salários mínimos — hoje, R$ 9.492 — para uma jornada de seis horas diárias.

Como estão as propostas de piso mais avançadas no Congresso

Como estão as propostas de piso mais avançadas no CongressoArte Congresso em Foco

Fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais tiveram o piso aprovado por deputados e senadores, mas em versões diferentes, e a proposta voltou ao Senado. Assistentes sociais e garis já venceram a etapa da Câmara. Os profissionais não docentes da educação básica também aguardam decisão dos senadores.

O projeto dos médicos e dentistas avançou no Senado, mas enfrenta resistência pelo impacto estimado em R$ 9,2 bilhões sobre o Fundo Nacional de Saúde apenas no primeiro ano.

Quem paga a conta?

É nesse ponto que a valorização profissional se transforma em impasse fiscal. Grande parte das propostas não apresenta uma fonte permanente de recursos capaz de financiar o aumento das despesas públicas. O custo pode recair sobre União, estados, municípios, hospitais, escolas, entidades filantrópicas e empresas privadas.

Por isso, medidas desse tipo costumam ser tratadas pelos Executivos como pautas-bomba. Prefeitos e governadores argumentam que o Congresso estabelece uma remuneração nacional, mas transfere a obrigação de pagamento a entes com capacidades financeiras muito diferentes.

Em junho, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), afirmou que mais de 30 projetos e propostas de emenda à Constituição sobre pisos, jornadas e reajustes aguardavam análise na Casa. Ao alertar para o impacto acumulado, resumiu: "Vai precisar de dez Brasis para pagar".

Alcolumbre também disse que a votação de uma categoria aumentaria a pressão para pautar as demais. "Se eu votar o piso do cirurgião-dentista, vou ter que votar o dos garis e das margaridas. Se eu votar o do fisioterapeuta, vou ter que votar o do terapeuta ocupacional", afirmou.

Alerta do Supremo

O ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal, também advertiu que o Congresso não pode criar despesas obrigatórias para estados e municípios sem indicar os recursos necessários ao pagamento. A Constituição passou a prever expressamente essa exigência em 2022.

Gilmar recorreu ao caso do piso da enfermagem, cuja aplicação pelo poder público foi condicionada pelo STF ao apoio financeiro da União. Para o ministro, impor obrigações uniformes sem considerar as diferenças orçamentárias locais pode atingir a autonomia dos entes federativos, prejudicar os serviços públicos e provocar até desemprego nas categorias que se pretendia proteger.

O alerta está alinhado à jurisprudência recente do Supremo, que considera inconstitucional a criação ou ampliação de despesas públicas sem receitas compensatórias. Gilmar também apresentou proposta de súmula vinculante para consolidar a exigência de estudos de impacto e medidas de compensação.

Poucos pisos viraram lei nos últimos anos.

Poucos pisos viraram lei nos últimos anos.Arte Congresso em Foco

A chiadeira dos prefeitos

Levantamento da Confederação Nacional de Municípios (CNM) estima que a aprovação de um grupo de 33 propostas de piso hoje discutidas no Congresso teria impacto de R$ 43 bilhões por ano apenas para os cofres municipais. Segundo a entidade, os setores mais pressionados seriam:

Saúde: R$ 20,2 bilhões (sendo R$ 15,9 bilhões com médicos e dentistas)

Assistência social: R$ 7,9 bilhões (equipes do Sistema Único de Assistência Social e assistentes sociais)

Educação: R$ 7,2 bilhões (R$ 6,8 bilhões para professores temporários)

Demais categorias: R$ 7,7 bilhões (garis, motoristas, contadores, jornalistas e outras)

De acordo com a entidade municipalista, a despesa com pessoal ativo nos municípios que informaram dados subiu de R$ 205 bilhões, em 2015, para R$ 448 bilhões, em 2024, crescimento médio de 9% ao ano. Além disso, informa a CNM, o número de servidores municipais passou de 5,4 milhões para 8,3 milhões em 15 anos.

"Essas medidas [pisos salariais] são legítimas, mas quando aprovadas sem previsão de custeio viram um desastre nacional", disse ao Congresso em Foco o presidente da CNM, Paulo Ziulkoski.

Valorização e responsabilidade

O debate reúne necessidades legítimas. Trabalhadores argumentam que pisos nacionais combatem a precarização, valorizam atividades essenciais e reduzem disparidades regionais. Governos e empregadores respondem que benefícios sem financiamento podem comprometer orçamentos, reduzir contratações ou piorar os serviços prestados.

Entre uma ponta e outra está o Congresso. Apresentar uma proposta dá visibilidade ao parlamentar diante de sindicatos, conselhos profissionais e grupos organizados. Transformá-la em lei exige vencer as duas Casas, conciliar textos e responder à pergunta que bloqueia grande parte dos projetos: de onde virá o dinheiro?

O salto de 20 para 110 projetos mostra que a reivindicação salarial ganhou força política. O número reduzido de leis revela o outro lado do processo: sem fonte de custeio, a promessa de valorização costuma parar entre o Plenário e o caixa público.

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