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A miopia do mercado e o custo bilionário de manter as mulheres fora dos conselhos

Diversidade na liderança deixou de ser pauta de representação e se tornou uma exigência de inteligência econômica, inovação e competitividade.

Adriana Vasconcelos

Adriana Vasconcelos

8/6/2026 11:00

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O movimento é real, as discussões ganharam os palcos dos grandes eventos corporativos, mas o ritmo de transformação ainda é a conta-gotas. Dados recentes das empresas que compõem o Ibovespa revelam que a participação feminina nos conselhos de administração subiu de 21,3% para 22,8% no último ano. Nas diretorias, o avanço foi ainda mais tímido e preocupante, passando de 16,4% para 17,1%. Embora o crescimento de 6,7% nos conselhos seja o maior registrado no último biênio, ele nos coloca diante de um incômodo e persistente paradoxo: por que a evolução de um dos pilares mais óbvios da boa governança corporativa ainda caminha a passos tão lentos no Brasil?

A resposta para essa estagnação disfarçada de progresso pode estar no que um estudo recente da EY (Ernst & Young) classifica com precisão como o "labirinto" da liderança. Durante muito tempo, usamos a metáfora do "teto de vidro" para descrever a barreira invisível que impedia as mulheres de chegarem ao topo. No entanto, a imagem do labirinto é muito mais fiel à realidade atual. O caminho para a alta liderança não é uma linha reta interrompida por um obstáculo final, mas um percurso exaustivo, cheio de idas e vindas, becos sem saída e atalhos ilusórios, onde barreiras culturais, estruturais e vieses inconscientes testam diariamente a resiliência feminina.

No entanto, o mesmo estudo traz o argumento definitivo que deveria encerrar qualquer debate no mercado financeiro: a diversidade não é, e nunca deveria ser tratada como, uma questão de "cotas", de concessão ou de mera filantropia corporativa. Trata-se, antes de tudo, de uma estratégia vital de sobrevivência, adaptação e inovação.

Conselhos plurais tomam decisões melhores, compreendem melhor seus consumidores e constroem organizações mais resilientes diante das crises.

Conselhos plurais tomam decisões melhores, compreendem melhor seus consumidores e constroem organizações mais resilientes diante das crises.Magnific

Empresas com conselhos diversos tendem a tomar decisões mais equilibradas, mitigam riscos com mais eficiência e antecipam tendências. Isso ocorre porque a presença de mulheres em posições de comando rompe a perigosa "miopia de mercado". Em um país onde as mulheres representam mais de 51% da população e são, indiscutivelmente, as principais tomadoras de decisão de consumo nos lares brasileiros, um conselho de administração puramente masculino é, por definição, um conselho míope e profundamente desconectado da realidade da sociedade que consome seus produtos e serviços. A diversidade traz o oxigênio necessário para a resolução de conflitos complexos e uma compreensão muito mais profunda e empática das demandas não apenas dos consumidores, mas também dos próprios colaboradores.

Felizmente, alguns exemplos no Brasil já mostram que o topo da pirâmide pode ter outra face e colher os frutos dessa pluralidade. Gigantes como Petrobras e Banco do Brasil — que, curiosamente, carregam o peso da gestão pública e da economia mista — figuram com destaque em equidade na diretoria e no conselho, respectivamente. Elas se juntam a nomes de peso do setor privado como Natura, B3, Magazine Luiza e Porto, corporações que já entenderam, na prática e nos balanços, que conselhos plurais são infinitamente mais inovadores e resilientes a crises.

A iniciativa "Pratique ou Explique" da B3, que incentiva as empresas listadas a adotarem medidas de diversidade ou justificarem a ausência delas, é sem dúvida um passo importante na nossa regulação. Mas o Brasil ainda olha de longe e com certo atraso exemplos como o do Reino Unido, onde a participação feminina nas 100 maiores empresas da Bolsa de Londres (FTSE 100) já atinge a marca histórica de mais 43%.

A lentidão brasileira tem um custo de oportunidade alto. Cada ano que passamos com conselhos homogêneos é um ano de decisões menos criativas e mercados mal compreendidos. Para quem acompanha as engrenagens do poder, fica o alerta: a equidade de gênero nos centros de decisão não é apenas uma pauta feminina. É uma pauta de inteligência econômica e governança de alto nível. O labirinto precisa virar avenida, e o tempo de esperar o "crescimento natural" já se esgotou.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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