Entrar

    Cadastro

    Notícias

    Colunas

    Artigos

    Informativo

    Estados

    Apoiadores

    Radar

    Eleições 2026

    Quem Somos

    Fale Conosco

Entrar

Congresso em Foco
NotíciasColunasArtigosPrêmioRadarEleições 2026
  1. Home >
  2. Colunas >
  3. O Judiciário começa a rever seus equívocos contra as mulheres | Congresso em Foco

Publicidade

Publicidade

Receba notícias do Congresso em Foco:

E-mail Whatsapp Telegram Google News
LEIA TAMBÉM

Adriana Vasconcelos

A misoginia mais próxima de se tornar um crime inafiançável

Adriana Vasconcelos

O custo bilionário de manter as mulheres fora dos conselhos

Adriana Vasconcelos

Um alento diante da fúria masculina

Adriana Vasconcelos

Aonde querem chegar as mulheres que pensam o país?

Adriana Vasconcelos

Quais presidenciáveis estão conectados com a pauta feminina?

Violência de gênero

O Judiciário começa a rever seus equívocos contra as mulheres

Decisão do STF reforça que vítimas de violência sexual não podem ser submetidas a humilhações e abusos durante o processo judicial.

Adriana Vasconcelos

Adriana Vasconcelos

22/6/2026 12:00

A-A+
COMPARTILHE ESTA COLUNA

O tempo de espera ainda é longo para que vítimas de violência doméstica ou sexual vejam seus agressores punidos. Mas é inegável que a resiliência feminina e a incansável mobilização por respeito e igualdade têm feito com que o Judiciário — o Poder Moderador de nossa democracia — comece a rever seus próprios equívocos, falhas que lamentavelmente seguem vitimando as brasileiras.

A influenciadora Mariana Ferrer esperou por essa "justiça" por quase oito anos. Desde o dia 16 de dezembro de 2018, quando denunciou ter sido dopada e estuprada por um empresário em um camarim privado do beach club Café de la Musique, em Jurerê Internacional (SC), ela iniciou uma via-crúcis que a expôs a novas e cruéis violências institucionais.

Neste cenário, a recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) traz um alento. Por unanimidade, a Corte decidiu anular a sentença que havia absolvido André Camargo Aranha da acusação de estupro, justamente em razão dos constrangimentos e humilhações sofridos pela jovem durante a audiência de instrução.

Com isso, o processo deverá voltar à estaca zero, na primeira instância. O relator do caso, ministro Alexandre de Moraes, reconheceu de forma contundente que a vítima foi achincalhada pelo então advogado do réu, sem que houvesse qualquer intervenção do promotor ou do juiz para interromper o abuso. Para Moraes, cuja posição foi seguida pelos demais ministros presentes, essa omissão e violência contaminaram as provas.

A decisão vai muito além do caso de Mariana. Ela fixa uma tese de repercussão geral que servirá de parâmetro para todos os tribunais do país: em processos sobre crimes sexuais, são nulas as provas obtidas mediante desrespeito aos direitos fundamentais da vítima — notadamente sua dignidade, honra, intimidade e integridade psicológica. A partir de agora, quem violar essa norma, seja juiz, promotor, advogado ou defensor público, ficará sujeito a punições nas esferas disciplinar, civil e criminal.

Também ficou estabelecido que as audiências relativas a crimes sexuais terão de ser obrigatoriamente gravadas, mediante a concordância da vítima. Outro ponto crucial assegura ainda que não serão anuladas sentenças amparadas em provas independentes do depoimento da vítima.

A anulação da absolvição de André Aranha representa um avanço no combate à violência institucional contra mulheres nos tribunais.

A anulação da absolvição de André Aranha representa um avanço no combate à violência institucional contra mulheres nos tribunais.Magnific

Se essas regras já existissem e fossem aplicadas com rigor, certamente teriam acelerado o questionamento e a punição dos outros algozes de Mariana Ferrer, além do próprio acusado da violência sexual. Afinal, o advogado do empresário, Cláudio Gastão da Rosa Filho, comandou uma verdadeira sessão de tortura psicológica. Ele exibiu fotos do período em que a jovem trabalhava como modelo, classificando-as como imagens em "posições ginecológicas", afirmou que jamais teria uma filha "daquele nível", e zombou das lágrimas da influenciadora, chamando-a de "dissimulada e falsa". Apesar de tudo isso, ele segue ileso de qualquer responsabilização.

O único dos quatro envolvidos na engrenagem de omissão a sofrer alguma sanção foi o magistrado Rudson Marcos, do Tribunal de Justiça de SC. Ainda assim, recebeu apenas uma advertência — a punição mais branda possível — do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), após a divulgação dos vídeos da audiência. Já o promotor Thiago Carriço de Oliveira viu seu processo administrativo disciplinar ser confortavelmente arquivado pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP).

Infelizmente, a decisão do STF também deixou uma lacuna. A Corte não acatou a sugestão do ministro Dias Toffoli, que propôs a suspensão do prazo de prescrição no caso de Mariana. Sem essa medida, corre-se o risco de o empresário ser favorecido mais uma vez por uma ilegalidade que sua própria defesa provocou.

Embora o cenário ainda esteja longe do ideal e a reparação total pareça distante, a anulação deste julgamento envia um recado claro. A situação confirma uma nova disposição do Judiciário de não mais tolerar — e de começar a rever — as injustiças machistas ainda praticadas nas barras dos nossos tribunais. É um passo importante, mas a vigilância das mulheres precisa continuar.


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

Siga-nos noGoogle News
Compartilhar

Tags

violência de gênero mariana ferrer Justiça direitos das mulheres supremo tribunal federal

Temas

gênero
COLUNAS MAIS LIDAS
Congresso em Foco
NotíciasColunasArtigosFale Conosco

CONGRESSO EM FOCO NAS REDES