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Adriana Vasconcelos
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O Judiciário começa a rever seus equívocos contra as mulheres
Adriana Vasconcelos
Gênero
20/7/2026 11:00
A solidariedade da primeira-dama Janja Lula da Silva à sua antecessora no posto, Michelle Bolsonaro, e à senadora Damares Alves, escancara o que a grande maioria das mulheres de todos os campos políticos já experimentou em algum momento de sua trajetória: a misoginia não tem lado, não tem bandeira, não tem partido.
Na semana passada, em entrevista à Folha de S.Paulo e ao UOL, Janja se solidarizou com Michelle e Damares diante dos ataques sofridos por ambas na esteira da divulgação de um vídeo em que a ex-primeira-dama relata ter sido maltratada pelo próprio enteado, o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro.
"Total solidariedade a elas. Qualquer mulher agredida não pode soltar a mão, não importa qual é o campo ideológico delas. A misoginia não tem lado. Não tem direita, nem esquerda, conservador ou progressista. É uma onda que vem de todos os lados e atinge todas nós igualmente", sentenciou Janja.
A postura é pouco usual em tempos de polarização exacerbada, ainda mais em um ano eleitoral. Janja, petista, feminista declarada, estende a mão a Michelle Bolsonaro, evangélica, conservadora, e a Damares Alves, ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos do governo Bolsonaro. Mulheres que, em qualquer outro tema, estariam em trincheiras opostas. Mas que, na violência de gênero, compartilham o mesmo alvo nas costas.
Durante reunião da Comissão de Direitos Humanos do Senado, a senadora Damares relatou ameaças contra sua filha — uma menina indígena. "Disseram que vão matar minha filha. Eles fazem imagens de como vão matá-la. Simulam que estão empalando a minha filha, que estão decapitando ela. É uma violência política que a gente não consegue imaginar", desabafou.
Não importa se você é senadora, ex-ministra, primeira-dama. Não importa se você reza ou não reza, se vota à direita ou à esquerda. O ódio misógino encontra você. E quando encontra, não pergunta qual é o seu partido.
Janja tocou num ponto crucial ao lembrar que 43% das mulheres vítimas de violência no Brasil são evangélicas. Os números mostram que a violência de gênero não é coisa de um lado só, mas atravessa igrejas, ideologias e classes sociais. O que muda, talvez, é a disposição de nomeá-la — e de estender a mão para quem está do outro lado do muro.
Um cenário que reforça a necessidade de aprovação do projeto de lei que criminaliza atos de misoginia, em tramitação na Câmara dos Deputados. A misoginia não é apenas uma pauta. É uma violência concreta, que mata, ameaça, humilha e silencia. E ela não pede identificação partidária antes de atacar.
O gesto de Janja não apaga as diferenças profundas entre os campos políticos que ela e Michelle representam. Nem deveria. A democracia se faz também no confronto de ideias. Mas a solidariedade no momento do ataque — essa não deveria ser exceção. Deveria ser regra.
"Qualquer mulher agredida não pode soltar a mão." A frase é simples. O problema é que, no Brasil de 2026, soltar a mão virou esporte nacional. E quem perde com isso somos sempre nós.
Que o episódio sirva de lembrete: o inimigo não é a mulher do outro lado. O inimigo é a estrutura que nos ataca — e que adora nos ver brigando entre nós enquanto ela segue intacta.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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