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Só falta agora quererem jogar as mulheres na fogueira, como na época da Inquisição

Declarações de Paulo Figueiredo revelam que o machismo ainda desafia direitos conquistados pelas mulheres e reforçam a necessidade de combater a misoginia na política.

Adriana Vasconcelos

Adriana Vasconcelos

6/7/2026 11:15

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Nunca é demais lembrar que as mulheres seguem sendo a maioria da população e do eleitorado do Brasil. Isso significa que setores de uma minoria se acham no direito de cassar um direito garantido há 94 anos às brasileiras? É o caso do blogueiro Paulo Figueiredo, que nem no país mora, mas se sentiu à vontade para bradar aos quatro ventos sua opinião deturpada sobre a realidade em que vivemos, afirmando que as mulheres "votam muito mal", especialmente as solteiras, já que as casadas tenderiam a acompanhar os votos dos maridos.

Cheio de razão, mas sem conseguir explicar como chegou a essa conclusão ou citar a fonte estatística, ele soltou essa inacreditável frase: "Mulher vota estatisticamente muito mal. Principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras, não. Podem arrancar os pentelhos das calcinhas, fazer o que quiser, principalmente as feministas, que têm mais pentelhos, mas eu quero dizer a vocês: isso é estatística".

Foi a reação dele, cheia de ironias e preconceituosa, à decisão da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro de expor, em vídeo publicado nas redes sociais, as humilhações que teria sofrido por discordar do enteado. Segundo admitiu Figueiredo, uma fala que atrapalha a estratégia de reduzir a rejeição do eleitorado feminino à candidatura do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Por mais que o senador Flávio Bolsonaro tenha repudiado as declarações de seu aliado, esclarecendo que Figueiredo não fala e nem participa de sua equipe de campanha, certamente a ideia decorrente a partir de sua frase _ em defesa do fim do voto feminino _ pesará na decisão de cada uma das eleitoras brasileiras em outubro próximo. Na hora de digitar o número de seu candidato ou candidata.

Reação às falas de Paulo Figueiredo mostra que a participação política das mulheres é uma conquista democrática que não pode ser relativizada por discursos misóginos.

Reação às falas de Paulo Figueiredo mostra que a participação política das mulheres é uma conquista democrática que não pode ser relativizada por discursos misóginos.Magnific

Possivelmente, por não ter a dimensão exata do que costuma defender nas redes sociais, a influenciadora Pietra Bertolazzi engrossou o coro de Paulo Figueiredo defendendo o fim do voto feminino no Brasil. Para ser fiel a tudo que prega na web, Pietra deveria encerrar sua carreira de influencer e colocar em prática o que defende, se incorporando à rotina da mulher "bela, recatada e do lar", sem direito a exposições. E assinar sua procuração para que só homens tenham a primazia de defender aquilo que acham bom ou ruim para as mulheres.

Do jeito que as coisas andam, não deverá demorar para que alguns inconformados com a ampliação do papel e do peso feminino na definição dos rumos do Brasil voltem a propor que as feministas de direita, esquerda ou centro sejam queimadas em fogueiras, como acontecia em praça pública durante a Inquisição na Europa. Era a forma de subjugar mulheres que detinham conhecimento sobre curas, parteiras ou que simplesmente desafiavam as normas sociais e patriarcais vigentes.

Esquecem-se, porém, que esse tempo acabou. Ninguém conseguirá calar Michelle Bolsonaro, Janja da Silva ou qualquer outra mulher por ter opinião própria, independentemente de sua preferência ideológica. Esse é o resultado de uma série de batalhas travadas ao longo de décadas e outras que ainda estão por vir, como o PL da Misoginia — que visa punir atos de ódio contra as mulheres — em vias de ser votado na Câmara dos Deputados.

O comportamento de Paulo Figueiredo só reforça o quanto o machismo segue entranhado na sociedade, mas também deixa às vistas de todos a reação imediata e organizada das brasileiras outrora silenciadas. Um tempo que não voltará. E como já havia nos lembrado há 11 anos, a única mulher a compor atualmente a Suprema Corte, a ministra Cármen Lúcia, em uma sentença favorável à liberdade de expressão no país: "cala boca já morreu, quem manda na minha boca sou eu".

Viva a liberdade e a democracia brasileira, que não existiria sem a participação da maioria de sua população: ou seja, nós, mulheres!


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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PAULO FIGUEIREDO voto feminino democracia direitos das mulheres

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