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Elon Musk trilionário: uma vergonha planetária

A fortuna de Elon Musk expõe um modelo econômico que concentra riqueza em escala obscena enquanto milhões ainda lutam para sobreviver.

Paulo José Cunha

Paulo José Cunha

16/6/2026 13:00

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A conversão do bilhardário sul-africano Elon Musk à condição de primeiro trilionário do mundo foi noticiada e recebida com um misto de estupefação, incredulidade e, o que é mais grave, com a mais pura... inveja. Na verdade, essa notícia deveria mesmo era provocar indignação e repulsa, pelo simples fato de que não se justifica, sob qualquer argumento, que um único habitante do planeta consiga acumular pessoalmente tanta riqueza enquanto milhões de seres humanos não dispõem sequer do suficiente para sobreviver. Pior: não se tem notícia de que Musk tenha posto em prática, durante toda a sua trajetória, qualquer projeto social. O que se conhece como projetos sociais de suas empresas são investimentos em educação científica, energia renovável e desenvolvimento de inteligência artificial. Tudo calibrado pra garantir retorno a médio ou longo prazo para ele próprio.

Os satélites da SpaceX teoricamente deveriam democratizar o acesso à informação, fornecendo internet de alta velocidade para comunidades isoladas, áreas rurais e regiões de difícil acesso ao redor do mundo. Na verdade, apenas preparam essas comunidades para consumirem os produtos da SpaceX, da mesma forma como o desenvolvimento de carros elétricos, painéis solares e baterias de armazenamento tem como objetivo central, ao fim e ao cabo, acelerar a transição energética global, mas principalmente facilitar o consumo de próprios produtos de seu grupo econômico. Basta verificar que não há registro de qualquer doação de Musk em momentos de crise humanitária e desastres naturais pelo planeta a fora. O que ele faz é simplesmente direcionar o envio de terminais portáteis da Starlink para restabelecer a comunicação em áreas afetadas, o que termina retornando na forma de lucro ao seu grupo financeiro.

Por tudo isso, o fato de Musk ter conseguido acumular fortuna trilionária em dólares não é apenas vergonhoso: é obsceno, revoltante e nojento. Basta verificar, rapidamente, o quanto, com essa montanha de recursos, ele poderia contribuir para a retirada de milhões de pessoas da linha da miséria, da fome e das doenças.

Neste exato momento, as desigualdades sociais no mundo refletem a concentração extrema de riqueza: os 10% mais ricos detêm cerca de 76% do patrimônio global, enquanto a metade mais pobre possui apenas 2%. A distância entre a base e o topo da pirâmide é surreal. A má distribuição de renda condena populações inteiras à extrema pobreza, enquanto fortunas bilionárias - trilionárias no caso de Musk - se concentram em nações desenvolvidas ou em elites locais.

No caso da educação, por exemplo, o investimento por aluno varia drasticamente. Em regiões como a África Subsaariana o investimento é feito em quantias irrisórias, enquanto a América do Norte e a Europa aplicam milhares de dólares por estudante anualmente. A desigualdade também resulta pura e simplesmente em razão de gênero e raça. Origem, sexo e etnia de ainda definem o acesso aos bens de consumo ou a cargos de liderança e, o que é ainda mais grave, a salários dignos.

A ascensão de fortunas trilionárias revela a incapacidade do sistema global de enfrentar a pobreza, a fome e a desigualdade estrutural.

A ascensão de fortunas trilionárias revela a incapacidade do sistema global de enfrentar a pobreza, a fome e a desigualdade estrutural.Magnific

Um relatório recente do Laboratório Mundial da Desigualdade revela uma disparidade crescente, agravada pelas mudanças climáticas e com uma "persistente desigualdade de gênero". Segundo reportagem do El País, os 10% mais ricos da população do mundo detêm 75% da riqueza global. Segundo o economista mexicano Ricardo Gomez Carrera, durante a apresentação do estudo, "as desigualdades afetam todas as áreas da vida econômica e social. Os dados revelam uma concentração extrema de riqueza em uma pequena parcela da população".

A verdade injusta e dolorosa é que os ricos estão ficando mais ricos e os pobres, mais pobres. Segundo o mesmo estudo, hoje, os 0,001% mais ricos da população mundial — menos de 60 mil bilionários — controlam três vezes mais riqueza do que metade da humanidade. E olha que a riqueza dessa minoria cresceu, em média, 8% ao ano desde a década de 1990. E essa tendência "continuou a aumentar, evidenciando a persistência da desigualdade", indica a pesquisa.

A fortuna de um trilhão de dólares de Elon Musk é uma quantia tão astronômica que equivale ao Produto Interno Bruto (PIB) de países como a Arábia Saudita ou a Turquia. Daria pra comprar a Toyota, a BYD, a Ferrari, a Mercedes-Benz, a BMW, a Volkswagen e a Ford, todas juntas, rivais da Tesla, a montadora dele. E ainda sobrariam 8 bilhões de dólares pra ele gastar, sei lá, com charutos ou sanduíches do Mc Donalds. Com 1 trilhão de dólares seria possível financiar a transição global para energia limpa e erradicar – sim, erradicar! - a pobreza extrema no mundo. Agora pergunta se ele está minimamente preocupado com isso.

Mas a notícia da conversão de Musk em trilhardário causa apenas reações do tipo: "Ah, se fosse eu..." Quando deveria provocar, isto sim, era indignação profunda e mobilização em escala planetária pelo fim das grandes fortunas e pela redução das desigualdades sociais.

A propósito: alguém viu ou ouviu por aí alguma manifestação desse tipo?


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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