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Lydia Medeiros
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Política
28/10/2026 17:30
Flávio Bolsonaro deu as costas a seus 59,8 milhões de eleitores. Fugiu do Brasil menos de 48 horas depois da derrota nas urnas para o presidente Lula. Enquanto o senador do Partido Liberal se retirava com a família para o exterior, o governador de São Paulo, Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos) confirmava uma das leis basilares da política: não existe vácuo de poder.
Tarcísio se reelegeu em primeiro turno, com 14,4 milhões de votos (62,6% do total), no maior colégio eleitoral do país. Flávio Bolsonaro ainda nem havia desembarcado nos Estados Unidos, quando o governador paulista se apresentou como o novo líder da direita brasileira. Em vídeo nas redes sociais, agradeceu ao candidato presidencial derrotado por "caminhar com a gente", sugeriu a união da oposição e apresentou o que chamou de "projeto de país".
"A eleição passou, mas não passou o desejo de ministérios com gente técnica e séria, de um governo que corte gastos e tire o peso dos impostos das costas do cidadão. De um país que não gaste mais com juros da dívida do que com saneamento básico, saúde e educação. De um país que incentive quem empreende e tire as pessoas da vulnerabilidade. Que corte privilégios antes de pedir sacrifício. Que combate o crime de verdade, não só no discurso. Esse desejo tem nome. Chama-se Projeto de País", afirmou.
O governador reconheceu o resultado da eleição, mas disse que a direita, agora, deve se unir para cumprir a tarefa que recebeu das urnas, de fazer "oposição vigilante", fiscalizar o governo e cobrar responsabilidade fiscal: "O uso da máquina, programas lançados fora do prazo, a interferência do Judiciário. Tudo isso marcou esta eleição e precisa deixar lições. Ontem [segunda-feira] vimos investidores saindo, a bolsa despencando, empresas perdendo valor, o câmbio disparando. As promessas de campanha precisam ser examinadas com rigor, porque a conta sempre chega para o contribuinte. A eleição passou, mas a falta de confiança fica."
Tarcísio era o candidato dos sonhos de amplos setores empresariais, fato lembrado por alguns representantes da direita logo após o anúncio do resultado eleitoral. Jair Bolsonaro, no entanto, impôs o nome do filho mais velho para a disputa presidencial. O governador preferiu não entrar em confronto com o padrinho político e optou por se fortalecer no nível regional.
O comportamento de Flávio, ao deixar o país e buscar asilo nos EUA, amparado por Donald Trump e numa narrativa de perseguição política capitaneada pelo ministro Alexandre de Moraes, enfraquece os Bolsonaro e frustra quem esperava dele "liderança". Recém-eleitos, Carlos Bolsonaro, Jair Renan e Michelle Bolsonaro ainda serão testados.
Flávio é suspeito de cometer os crimes de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas. Com a derrota eleitoral, ficará, pela primeira vez, sem um mandato parlamentar para protegê-lo. Vai apostar na vitimização, mas as investigações prosseguem no Brasil, enquanto seu capital político se liquefaz rapidamente.
A reação inicial de Flávio à derrota, pedindo a anulação das eleições, não encontrou apoio nem mesmo no PL. Cauteloso e com inegáveis faro político e instinto de sobrevivência, Valdemar Costa Neto tratou logo de reconhecer o resultado das urnas. Ele comanda hoje o maior partido nacional, que obteve 25,8 milhões de votos par deputado federal. No ano que vem, vai administrar um Fundo Partidário que deverá ultrapassar a casa do bilhão de reais. Com a fuga de Flávio, pode ganhar mais autonomia para gerir os recursos, tirar o partido do extremismo e, logo, do isolamento político em que se encontra — o PL não fez alianças para a eleição presidencial.
A derrota e a fuga de Flávio oferecem uma oportunidade de reconstrução à direita tradicional. O PL cresceu tirando votos e discurso desses partidos. O governador Tarcísio saiu na frente, aplicando na política uma outra lei — do futebol: "Quem pede tem preferência; quem se desloca, recebe."
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