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Lydia Medeiros
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Política
20/10/2026 19:00
Desde o primeiro turno, Flávio Bolsonaro repete que seu partido, o PL, terá maioria para eleger os presidentes da Câmara e do Senado. E, assim, poderá mudar a Constituição para, segundo ele, "redemocratizar o país". Além de cometer um autoengano político, o senador também golpeou as leis da matemática.
O Centrão hoje comanda o Senado, com Davi Alcolumbre, e a Câmara, com Hugo Motta. No meio da disputa presidencial, Flávio Bolsonaro ensaiou um avanço sobre os cargos de Alcolumbre, que é do União Brasil, e de Motta, do Republicanos. A reação na Câmara foi rápida. Líderes e presidentes de dez partidos (União Brasil, PP, Republicanos, PSD, MDB, PSDB-Cidadania, Podemos e Solidariedade-PRD) divulgaram uma nota em que anunciam a manutenção do bloco que apoiou a eleição de Motta e defendem sua recondução ao cargo em 2027. Flávio e o PL terão de negociar muito para ocupar os postos de comando no Congresso.
No ano que vem o PL de Flávio Bolsonaro terá 121 deputados. Somados aos dez eleitos pelo Novo, a bancada da extrema direita contará com 131 integrantes. Aglutinados pelo PT de Lula, os sete partidos da esquerda ficaram com 124 cadeiras (além do PT, PCdoB, PSB, PV, PSoL, PDT e Rede). Já o Centrão tradicional (União Brasil, PP e Republicanos) terá 128 deputados. O centro (representado por MDB, PSD e PSDB) elegeu 90 representantes.
Para se aprovar uma emenda constitucional, o quórum mínimo exigido é de 308 votos, em dois turnos de votação na Câmara. Logo, Flávio Bolsonaro e o seu PL não teriam votos suficientes. Precisariam pedir ajuda para mudar a Constituição. No caso, um auxílio que não é pequeno: mais 187 votos de deputados, no mínimo. Quer dizer, teriam de conquistar 70% dos 218 votos disponíveis em seis partidos (União Brasil, PP, Republicanos, MDB, PSD e PSDB).
A situação no Senado não é diferente. PL e Novo terão 31 cadeiras, mas para emendar a Constituição são necessários ao menos 49 votos, em dois turnos. Faltariam a Flávio Bolsonaro ao menos 18 votos. Eles existem, mas estão nos partidos do Centro/Centrão.
O recado desse grupo ao filho de Jair Bolsonaro foi dado antes mesmo das eleições, quando esses partidos deixaram Flávio Bolsonaro no isolamento, descartando uma aliança eleitoral, inclusive a oferta para a vaga de vice na chapa. O bolsonarismo, com a expressiva votação que o PL obteve para o Legislativo, tirou espaço da direita tradicional. Ela encolheu em Estados importantes, especialmente São Paulo e Rio.
A perda não foi apenas política, mas também financeira. As bancadas eleitas para a Câmara definem o valor do Fundo Partidário. Num modelo de financiamento partidário em que as legendas se transformaram em empresas, as eleições deram prejuízo. O PL cresceu 23% na Câmara, em cima dos partidos do Centro/Centrão.
A força desse centro parlamentar está na sua coesão e elasticidade ideológica. Todos os governos precisaram do bloco para governar nas últimas décadas. Não será diferente, qualquer que seja o eleito. O preço da aliança pode ser até mais alto para Flávio Bolsonaro, se eleito, apesar da suposta afinidade — o pai dele ficou dois anos e meio isolado no governo e, quando negociou, precisou entregar até a Casa Civil. O candidato do PL sabe disso, mas resolveu escorregar nas palavras, tropeçar na aritmética e atropelar o tempo da política.
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