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SIGILO QUEBRADO

Caso Master: PF diz que Vorcaro soube antes de operação que o prendeu

Banqueiro tinha nomes de investigadores, sabia quem era o juiz do caso e mudou planos na véspera da Compliance Zero. Peça retirada do sigilo por Mendonça detalha os indícios apontados pela PF.

Congresso em Foco

11/9/2026 | Atualizado às 8:25

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A Polícia Federal concluiu que Daniel Vorcaro teve conhecimento, ao menos parcial, da operação contra o Banco Master antes de sua deflagração, em 18 de novembro de 2025. Para os investigadores, registros encontrados no celular do banqueiro indicam que informações reservadas chegaram a ele e ajudam a explicar uma série de movimentações nos dias que antecederam sua prisão.

Vorcaro tinha nomes de policiais que participaram de uma reunião reservada sobre o Master, sabia quem era o juiz responsável pela investigação e, na véspera da operação, mudou a agenda, tentou acessar o processo, articulou uma reunião de última hora com o Banco Central e preparou uma viagem ao exterior.

Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro de 2025, quando tentava deixar o país.

Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez em novembro de 2025, quando tentava deixar o país.Master/Divulgação

As informações constam de uma representação de 164 páginas encaminhada pela PF ao ministro André Mendonça, do STF, em 27 de fevereiro deste ano. O documento, tornado público nesta sexta-feira (11), foi produzido para fundamentar novos pedidos de prisão e outras medidas cautelares a partir da análise de celulares, mensagens, áudios e documentos apreendidos na Operação Compliance Zero.

Mendonça levantou na noite de quinta-feira o sigilo de parte das investigações da Compliance Zero, após pedido do presidente do STF, Edson Fachin. Esta é uma das 15 investigações que tiveram o sigilo suspenso pelo ministro.

No documento, a corporação afirma que os indícios apontam que Vorcaro soube, "ainda que parcial[mente]", da atuação da Polícia Federal e do Banco Central prevista para o dia 18 e adotou medidas para acessar o inquérito e prejudicar a atuação dos órgãos públicos.

O que levou a PF a essa conclusão

A investigação destaca quatro momentos principais:

  • 21 de outubro: Vorcaro registra nomes de policiais que haviam participado de uma reunião reservada entre PF e Banco Central e diz receber informações de "amigos" dentro do BC;
  • 16 de novembro: dois dias antes da operação, aparece em seu celular o nome do juiz responsável pelo inquérito sigiloso;
  • 17 de novembro: muda seus planos, organiza um voo, busca acesso ao processo e insiste para antecipar uma reunião com o Banco Central;
  • naquela noite: é preso em Guarulhos antes de embarcar em um jato particular. Na manhã seguinte, a Compliance Zero é oficialmente deflagrada.

O documento não apresenta uma mensagem em que alguém diga expressamente a Vorcaro que a operação ocorreria no dia 18. A conclusão da PF decorre da combinação desses elementos.

"Amigos" dentro do Banco Central

Um dos primeiros indícios aparece quase um mês antes da operação. Em 17 de outubro, representantes da PF e do Banco Central participaram de uma reunião reservada sobre a investigação do Master. Quatro dias depois, Vorcaro havia registrado no celular os nomes de policiais presentes no encontro, entre eles integrantes das áreas de investigação e repressão a crimes financeiros.

Poucos minutos depois, fez outra anotação. Vorcaro escreveu que as informações vinham de pessoas "de dentro do Bacen que são meus amigos e ficaram preocupados". Acrescentou que elas haviam participado das reuniões, que os dados eram "100% confiáveis" e que não poderia "queimá-los".

Para a PF, os registros indicam que informações reservadas sobre a investigação chegavam ao banqueiro semanas antes do cumprimento dos mandados.

Nome do juiz em inquérito sigiloso

Outro elemento surgiu em 16 de novembro, dois dias antes da operação. Vorcaro registrou no celular a pergunta "Vocês são próximos?", seguida do nome do juiz federal Ricardo Soares Leite e da referência à 10ª Vara Federal. Era justamente o magistrado responsável pelo inquérito e pelas medidas contra o banqueiro.

A PF ressalta que o procedimento estava sob sigilo e afirma que, naquele momento, "não haveria nenhuma razão ou meio lícito conhecido" para que Vorcaro soubesse o nome e a jurisdição do juiz responsável. Esse registro dá peso à tese policial porque mostra que a suspeita de conhecimento antecipado não se baseia apenas na viagem marcada para a véspera da operação. Antes disso, Vorcaro já dispunha de informações sobre quem investigava o Master e quem conduzia judicialmente o caso.

Mudança de roteiro na véspera

Na manhã de 17 de novembro, a movimentação aumentou. Às 7h28, Vorcaro recebeu mensagens do advogado Walfrido Warde para tratar de assunto considerado "importante". Segundo a PF, os dois recorreram a ligações, áudios e mensagens de visualização única. Depois do contato, Vorcaro mudou sua agenda — "não marca mais a reunião pq agora mudei o roteiro" — e, às 8h48, já informava ao advogado que estava organizando um voo "saindo de Congonhas".

No mesmo dia, a defesa protocolou pedido para acessar o inquérito da 10ª Vara Federal de Brasília. Uma reportagem que mencionava a existência do procedimento foi citada em uma das versões da petição como fonte dessa informação. Warde também manteve contatos com o magistrado e disse a Vorcaro estar "infernizando" o juiz.

Reunião com o BC virou argumento da defesa

Ainda no dia 17, Vorcaro buscou antecipar uma reunião com o Banco Central. Os contatos foram intermediados por Paulo Sérgio Neves de Souza e Belline Santana, integrantes do Departamento de Supervisão Bancária e investigados em outra parte da mesma representação por suspeita de atuar em favor dos interesses do Master.

O diretor de Fiscalização do BC, Ailton Aquino, havia sugerido inicialmente uma conversa no dia seguinte, mas Vorcaro insistiu para que o encontro ocorresse ainda naquela segunda-feira. Durante a videoconferência, informou que pretendia viajar para Dubai naquela noite e que negociava uma solução para o banco.

A reunião ganharia peso depois da prisão. A defesa apresentou ao Tribunal Regional Federal da 1ª Região documento do BC para demonstrar que Vorcaro havia comunicado previamente sua viagem. O argumento foi usado para afastar a suspeita de fuga e apareceu na decisão que suspendeu sua prisão preventiva.

A PF fez a leitura oposta. Para os investigadores, Vorcaro já sabia da iminência da ação policial quando insistiu para antecipar a reunião, que teria servido para formalizar uma justificativa para a viagem. A corporação destaca que a videoconferência não foi gravada, não teve ata nem registro contemporâneo dos assuntos tratados. A descrição utilizada pela defesa foi assinada posteriormente por Paulo Sérgio, também investigado no caso. Para a PF, diante dos demais indícios, é improvável que a saída do país justamente na noite anterior ao cumprimento dos mandados tenha sido uma "mera coincidência".

Quadro feito na noite anterior

A busca realizada na sede do Master no dia seguinte acrescentou outro elemento à investigação. Os policiais encontraram um quadro com setas, valores e referências ao banco, a Vorcaro — identificado como "DV" — e a fundos de investimento. No centro estava escrito "TITAN CAYMAN", expressão que a PF relaciona a uma possível offshore nas Ilhas Cayman.

Segundo o relatório da diligência, uma advogada do Master informou que o esboço havia sido elaborado na noite anterior, a mesma em que Vorcaro pretendia viajar ao exterior. A PF interpreta o quadro como um planejamento de fluxos financeiros e societários feito no período em que, segundo os investigadores, Vorcaro já sabia da iminência da ação. Suspeita faz parte de investigação mais ampla

Quatro frentes

Na conclusão da representação, a PF afirma ter encontrado indícios de uma estrutura mais ampla para proteger Vorcaro e seus negócios. Os investigadores dividem essa atuação em quatro frentes: influência sobre servidores do Banco Central, obtenção irregular de informações sigilosas, coerção e ameaça contra opositores e manipulação de mídia e redes sociais.

Dentro desse contexto, a PF afirma expressamente que Vorcaro "tomou conhecimento prévio da futura operação policial" e aponta como possíveis caminhos para a chegada das informações servidores do Banco Central ou contato proveniente de Warde. A peça, porém, não define quem teria vazado os dados nem exatamente quanto o banqueiro sabia sobre a operação.

Os achados tiveram consequência direta. A representação de 27 de fevereiro foi usada pela Polícia Federal para pedir uma nova prisão preventiva de Vorcaro, além de medidas contra outros investigados. O pedido foi acolhido por André Mendonça. Em março, Vorcaro foi preso novamente, na terceira fase da Operação Compliance Zero.

Sigilo levantado

O ministro André Mendonça, do STF, retirou o sigilo de 15 procedimentos relacionados às investigações sobre o Banco Master, atendendo a pedido do presidente da Corte, Edson Fachin. A medida alcança a Pet 15.556, que concentra parte central do caso Master, e outros 14 procedimentos vinculados, entre eles os Inquéritos 5.026 e 5.035 e as Petições 15.198, 15.478, 15.504, 15.562, 15.563, 15.693, 15.976, 15.977, 15.978, 16.019 e 16.662.

Fachin justificou a abertura dos autos pela inclusão da Pet 16.662, derivada da Pet 15.556, na sessão extraordinária marcada para terça-feira (15). Além de levantar o sigilo, Mendonça também deverá encaminhar à presidência e aos gabinetes de todos os ministros a íntegra dos procedimentos relacionados ao caso para análise prévia.

Processo: Petição 15.556

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