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Aonde querem chegar as mulheres que pensam o país?

Decisão do TJ-PR que desclassificou tentativa de feminicídio expõe como o machismo ainda atravessa instituições brasileiras.

Adriana Vasconcelos

Adriana Vasconcelos

25/5/2026 11:00

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No último dia 15 de maio, a 1ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ-PR) tomou uma decisão que choca pela desconexão com a realidade da violência de gênero no país. Três desembargadores homens acataram o recurso da defesa de José Rodrigo Bandura para desclassificar o crime de feminicídio tentado — quando o réu ateou fogo à ex-companheira em junho do ano passado — para lesão corporal grave.

Sob uma ótica estritamente masculina que ainda prevalece em diferentes instâncias do Judiciário, os magistrados acolheram o argumento de que o arrependimento posterior do réu e sua tentativa de apagar as chamas justificavam a brandura. Mas qual seria a intenção de quem ateia fogo em um corpo humano se não a morte?

A sociedade brasileira, felizmente, já não tolera a minimização da violência contra a mulher. Os casos de crueldade física extrema quase sempre são precedidos por agressões psicológicas e abusos sutis que testam os limites das vítimas.

Como resposta a essa realidade, lideranças femininas de diferentes áreas reuniram-se no Senado Federal na última quinta-feira para dar início à redação da "Carta das Mulheres para a Política". O documento busca pressionar os candidatos nas eleições deste ano a se comprometerem com propostas que garantam a participação feminina em espaços de poder — o único caminho viável para barrar decisões retrógradas como a do tribunal paranaense.

Julgamento no Paraná reacende debate sobre violência de gênero e reforça a urgência da presença feminina nos espaços de decisão.

Julgamento no Paraná reacende debate sobre violência de gênero e reforça a urgência da presença feminina nos espaços de decisão.Magnific

A força dessa reação ficou evidente no depoimento dessas lideranças durante o encontro do grupo "Mulheres que Pensam o Brasil". Impressiona a coragem e a firmeza de Adah Mariah, estudante de Direito e Ciências Sociais de 19 anos, ao dividir com o grupo um alerta preocupante: de que a nova geração de jovens homens tem se mostrado mais conservadora e hostil às mulheres do que as mais velhas.

A jovem compartilhou a transformação do seu sentimento de indignação — ao tomar conhecimento da existência de uma lista de "alunas estupráveis" circulando no colégio particular, em plena capital federal, onde cursava o ensino fundamental — em propulsão para fundar o movimento "Elas Podem" dentro da faculdade onde estuda hoje. E já traça planos de disputar cargos de representação no futuro, nos apontando um dos caminhos para a renovação política que o Brasil precisa ainda percorrer.

Essa mesma resiliência sustenta Cristiane dos Santos Silva, eletricista que atua há 14 anos na Marinha Mercante Brasileira, setor onde as mulheres ocupam meros 1% dos postos da tripulação de embarcações que circulam por nosso litoral e rios na Amazônia, como é o caso dela.

Inspirada pela Comandante Hildelene Lobato Bahia — primeira mulher a comandar um navio mercante no país —, Cristiane ajudou a fundar a Associação das Mulheres Aquaviárias do Brasil (Amab). Nascida como um grupo de apoio digital, a associação expõe os testes constantes, sabotagens e o isolamento enfrentados por essas mulheres em um ambiente ainda dominado por homens, que segue desafiando-a e também às suas colegas de profissão.

Daí a emoção e as lágrimas derramadas por Cristiane durante o encontro, ao perceber a dimensão que a mobilização feminina vem ganhando, na qual a solidão da luta individual dá lugar à potência de um movimento cada vez mais organizado. Sigamos em frente, mostrando ao país e ao mundo o tamanho da nossa resiliência!


O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].

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