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CASO MASTER
Congresso em Foco
11/9/2026 | Atualizado às 9:12
Dois integrantes da chefia da área responsável por fiscalizar bancos no Banco Central preparavam Daniel Vorcaro para reuniões com o próprio órgão, revisavam documentos do Banco Master e antecipavam informações sobre fiscalizações, segundo a Polícia Federal. A atuação levou os investigadores a afirmar que os servidores agiam, em alguns momentos, como verdadeiros "empregados" do banqueiro.
Os investigados são Belline Santana, então chefe do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), e Paulo Sérgio Neves de Souza, chefe-adjunto da unidade. O Desup está diretamente ligado à fiscalização de instituições financeiras e atuava em processos de interesse do Master.
As informações constam de uma representação de 164 páginas enviada pela PF ao ministro André Mendonça, do STF, em fevereiro e retirada do sigilo nesta quinta-feira (10). A peça reúne mensagens e outros materiais apreendidos na Operação Compliance Zero e foi usada para pedir prisões e medidas cautelares. Belline e Paulo Sérgio são servidores de carreira do Banco Central, mas estão afastados das funções por ordem do STF e submetidos a medidas cautelares, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica.
Mendonça levantou na noite de quinta-feira o sigilo de parte das investigações da Compliance Zero, após pedido do presidente do STF, Edson Fachin. Esta é uma das 15 investigações que tiveram o sigilo suspenso pelo ministro.
Como funcionava a "consultoria"
As mensagens de Paulo Sérgio encontradas no celular de Vorcaro começam em outubro de 2023. A partir dali, a PF identifica uma rotina de auxílio ao banqueiro em assuntos submetidos justamente à fiscalização do Banco Central.
Em uma conversa, o servidor atribui "prioridade absoluta" a uma demanda de Vorcaro. Antes de uma reunião com o presidente do BC, envia espontaneamente os pontos que o banqueiro deveria destacar.
Em fevereiro de 2024, Paulo Sérgio também antecipou temas que poderiam ser levantados em uma conversa com o diretor de Fiscalização, Ailton Aquino, incluindo relações do grupo com a Reag e Mansur.
Outro achado considerado relevante pela PF envolve documentos oficiais. Paulo Sérgio revisava textos elaborados pelo Master antes de serem apresentados ao Banco Central. Algumas minutas seriam destinadas ao próprio Desup e ao próprio servidor que havia participado da revisão.
Para os investigadores, a dinâmica ultrapassava uma interlocução normal entre regulador e regulado: o fiscalizador ajudava o fiscalizado a se preparar para responder ao órgão em que trabalhava.
Alerta sobre movimentação bilionária
A PF também aponta repasse de informações sobre controles internos. Em fevereiro de 2025, Paulo Sérgio avisou Vorcaro que uma saída de R$ 488 milhões do fundo Reag Growth 95 e a entrada de R$ 545 milhões na Master Holding Financeira haviam caído em um filtro da área de monitoramento.
Segundo a investigação, o episódio mostra o servidor alertando o banqueiro de que uma movimentação superior a R$ 1 bilhão havia despertado a atenção dos mecanismos de controle.
Paulo Sérgio aparece ainda em tratativas sobre negócios do conglomerado. A representação cita possíveis compradores para o Letsbank, tentativa de rever posicionamento desfavorável à aquisição do Will Bank e, em 2025, discussões sobre a operação envolvendo Master e BRB e assuntos relacionados ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC).
A proximidade foi reconhecida pelo próprio Vorcaro. Em conversa com o cunhado Fabiano Zettel, ele disse que Paulo Sérgio "tá sendo um anjo na vida" e recomendou que fosse bem tratado.
"Visão estratégica" grupo chamado Master
A PF encontrou comportamento semelhante nas conversas com Belline, que chefiava o Desup. Segundo a representação, Belline revisava documentos estratégicos do Master e atuava, às vezes por iniciativa própria, em assuntos de interesse do banco. A PF afirma que ele parecia integrar o "mesmo time" de Vorcaro.
Em abril de 2024, Belline marcou com Vorcaro e Paulo Sérgio uma reunião para tratar de "visão prospectiva e estratégica". Deu ao banqueiro a opção de realizar o encontro na sede do Banco Central ou na do próprio Master.
"Não parece regular que fiscalizado e fiscalizadores alinhem e compartilhem da mesma visão prospectiva e estratégica para o banco", registra a PF.
Há ainda registro de uma reunião de Belline com Vorcaro na residência do banqueiro, em março daquele ano.
A interlocução ganhou um canal exclusivo em outubro de 2025. Belline criou no WhatsApp um grupo chamado "Master", formado por ele, Paulo Sérgio e Vorcaro. Segundo a PF, o espaço era usado para facilitar contatos, discutir estratégias e revisar documentos de interesse da instituição.
PF aponta possíveis contrapartidas
A investigação também procura demonstrar que a atuação dos servidores teria sido acompanhada pelo recebimento de vantagens. No caso de Belline, a PF afirma que Vorcaro e Zettel organizaram um contrato com a Varajo Consultores para dar aparência regular aos pagamentos. Formalmente, o servidor participaria de um estudo sobre a inserção de jovens no mercado financeiro.
Após Belline concordar com a proposta, Zettel encaminhou a mensagem a Vorcaro. O banqueiro respondeu: "que circo". A PF interpreta o episódio como indício de que a prestação de serviços teria sido simulada para justificar os repasses. Os investigadores encontraram ainda preocupação para que os pagamentos não partissem diretamente do Master. Em uma planilha de "despesas fixas mensais" compartilhada por Vorcaro e Zettel, Belline aparece associado a R$ 500 mil. A representação cita também despesas de almoço, jantar e guia durante uma viagem de Belline a Paris que teriam sido custeadas por Vorcaro.
No caso de Paulo Sérgio, um dos principais pontos investigados é a venda de um imóvel rural. A PF encontrou uma minuta de 2020 que previa negócio de R$ 4,8 milhões envolvendo Paulo Sérgio, seu irmão e uma empresa ligada a Fabiano Zettel. As mensagens indicam, segundo a polícia, que Vorcaro participou da articulação da negociação.
Servidores negam favorecimento
Em depoimento administrativo, Paulo Sérgio afirmou que recebeu a proposta em 2019 e que só soube da ligação do comprador com Vorcaro quando o imóvel foi escriturado. Disse ter recebido o pagamento em cinco parcelas.
A PF também encontrou mensagens em que Vorcaro envia a um prestador de serviços o roteiro de uma viagem de Paulo Sérgio e sua família à Disney e pede a contratação de um guia. Paulo Sérgio e Belline contestam a interpretação da Polícia Federal e negam ter atuado em benefício indevido de Vorcaro.
As versões dos servidores também aparecem em procedimento administrativo aberto pelo próprio Banco Central. Paulo Sérgio afirmou que a transação do imóvel foi regular. Belline declarou ter recebido valores por trabalhos de consultoria e negou saber que o Banco Master seria responsável pelos pagamentos, segundo o relatório enviado pelo BC à PF. Vorcaro também nega ter corrompido servidores e sustenta que seus contatos com integrantes do Banco Central faziam parte da interlocução normal de uma instituição financeira com o regulador.
BC comunicou suspeitas
As suspeitas não surgiram apenas das mensagens apreendidas com o banqueiro. O próprio Banco Central comunicou à Polícia Federal condutas de Paulo Sérgio e Belline que poderiam, em tese, configurar corrupção passiva. Os dois foram chamados à presidência da autarquia e ouvidos administrativamente sobre os contatos com Vorcaro e o possível recebimento de vantagens.
Posteriormente, o BC afastou ambos das funções de confiança. Na representação ao STF, a PF pediu medidas adicionais, entre elas suspensão do exercício da função pública, proibição de entrar nas dependências ou acessar sistemas do Banco Central, vedação de contato com outros investigados e monitoração eletrônica.
Para a PF, o ponto central da investigação é a inversão de papéis: servidores colocados em postos estratégicos para fiscalizar o Master teriam, paralelamente, ajudado seu controlador a lidar com essa mesma fiscalização. É essa atuação que levou os investigadores a descrevê-los como verdadeiros "empregados" de Vorcaro.
Sigilo levantado
O ministro André Mendonça retirou o sigilo de 15 procedimentos relacionados às investigações sobre o Banco Master, atendendo a pedido do presidente da Corte, Edson Fachin. A medida alcança a Pet 15.556, que concentra parte central do caso Master, e outros 14 procedimentos vinculados, entre eles os Inquéritos 5.026 e 5.035 e as Petições 15.198, 15.478, 15.504, 15.562, 15.563, 15.693, 15.976, 15.977, 15.978, 16.019 e 16.662.
Fachin justificou a abertura dos autos pela inclusão da Pet 16.662, derivada da Pet 15.556, na sessão extraordinária marcada para terça-feira (15). Além de levantar o sigilo, Mendonça também deverá encaminhar à presidência e aos gabinetes de todos os ministros a íntegra dos procedimentos relacionados ao caso para análise prévia.
Processo: Petição 15.556
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