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REDUÇÃO DA JORNADA
Congresso em Foco
16/4/2026 | Atualizado às 12:19
O debate sobre o fim da escala 6x1 avançou por dois caminhos no Congresso. De um lado, o governo enviou um projeto de lei que altera a CLT e outras normas para reduzir a jornada para 40 horas semanais, garantir dois dias de descanso e manter os salários. De outro, o deputado Paulo Azi (União-BA) apresentou parecer pela admissibilidade de duas propostas de emenda à Constituição (PECs) sobre o mesmo tema.
Na prática, isso significa que, se o relatório for aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), as PECs seguirão para uma comissão especial, onde o mérito será analisado. É nesta fase que são feitas as principais alterações, o que aumenta a importância do relator, cujo nome ainda não foi anunciado.
Apesar das diferenças, há um ponto de convergência: o debate hoje parece mais concentrado na troca da jornada de 44 para 40 horas semanais, com dois dias de descanso, do que na adoção imediata da semana de quatro dias. O impasse está em outro ponto: como fazer essa mudança, em quanto tempo e por qual instrumento jurídico.
Veja a íntegra do projeto de lei do governo.
Veja o relatório de Paulo Azi na CCJ.
As disputas em jogo
Os defensores da redução da jornada contam com a pressão do governo federal, das centrais sindicais, do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e de parlamentares do campo trabalhista. Esse grupo associa o fim da escala 6x1 à redução de adoecimento, acidentes e rotatividade, além de defender mais tempo para descanso e convivência familiar.
Do outro lado, a resistência à mudança é forte. Atuam nesse campo confederações patronais e setores como comércio, serviços, indústria, transporte e agropecuária, que alertam para aumento de custos, demissões, informalidade e maior impacto sobre micro e pequenas empresas. Por isso, defendem transição gradual, flexibilidade para escalas especiais e maior peso da negociação coletiva.
Hugo Motta manifestou ao presidente Lula que prefere que o assunto seja tratado por PEC. Mesmo assim, Lula optou por enviar um projeto de lei com urgência constitucional, o que obriga cada Casa a votar o texto em até 45 dias. Com o projeto, o presidente também garante o direito de vetar trechos dos quais discorde, o que não é possível fazer em emenda constitucional, promulgada pelo próprio Congresso.
"Nós já havíamos traçado uma tramitação para que a matéria seja apreciada através de propostas de emenda à Constituição e eu estou aqui dando seguimento ao cronograma já pré-estabelecido. Da mesma forma que é um direito do presidente mandar o projeto de lei com urgência, é um direito do presidente da Câmara decidir a tramitação das matérias legislativas aqui na Casa", declarou Hugo Motta nessa quarta-feira, ao anunciar celeridade para a votação.
PEC e projeto de lei: qual é a diferença
Essa é a primeira distinção a ser feita.
O projeto de lei altera normas já existentes, como a CLT. Em geral, é mais fácil de aprovar e também mais simples de mudar depois.
A PEC altera a Constituição. Exige votação mais dura, com apoio de três quintos da Câmara e do Senado, em dois turnos, e torna a regra mais rígida no futuro.
Na prática, o governo escolheu um caminho mais flexível. Já Paulo Azi alerta, em seu parecer, que incluir uma escala específica na Constituição pode engessar o tema e reduzir a margem de adaptação para diferentes setores da economia.
O que propõe o governo
O projeto do Executivo prevê:
O texto também altera regras de várias categorias, como empregados do comércio, domésticos, radialistas e atletas. Na justificativa, o Ministério do Trabalho afirma que a proposta busca enfrentar os efeitos da escala 6x1 sobre a saúde, o descanso e a qualidade de vida dos trabalhadores, sem eliminar a possibilidade de negociação entre patrões e empregados.
O que diz o parecer de Paulo Azi
O parecer de Paulo Azi não cria, por si só, uma nova jornada. Neste momento, ele apenas analisa se duas PECs podem continuar tramitando.
As propostas analisadas são a PEC 221/2019, apresentada por Reginaldo Lopes (PT-MG), que reduz a jornada para 36 horas semanais em 10 anos, e a PEC 8/2025, apresentada por Erika Hilton (Psol-SP), que propõe quatro dias de trabalho por semana, com limite de 8 horas por dia e 36 horas semanais.
O relator conclui que as duas PECs são admissíveis, por atenderem aos critérios de constitucionalidade, legalidade, juridicidade e técnica legislativa. Mas o relatório vai além desse aval formal. Ele resume audiências públicas, reúne argumentos favoráveis e contrários e antecipa os temas que precisarão ser enfrentados na próxima etapa da tramitação: impacto econômico, transição, negociação coletiva, micro e pequenas empresas e possíveis compensações.
Paulo Azi também aponta um problema na PEC 8/2025: se a proposta fala em quatro dias de trabalho por semana com oito horas por dia, o resultado é 32 horas semanais, e não 36. Para ele, isso não impede a tramitação, mas mostra que o texto ainda precisa ser ajustado.
Onde há convergência
Os dois caminhos não são idênticos, mas se aproximam em pontos importantes.
Fim da lógica da 6x1
O projeto do governo garante dois descansos semanais. O parecer registra que o debate na Câmara caminha para substituir a escala 6x1 por um modelo 5x2.
Redução da jornada sem corte de salário
O projeto do governo veda redução salarial. No parecer, Azi registra que governo e centrais sindicais defendem a redução sem perda de remuneração.
Peso da negociação coletiva
O governo preserva acordos coletivos para acomodar particularidades de cada setor. O relatório também trata a negociação como peça importante para adaptar a mudança à realidade de cada atividade.
Diagnóstico social semelhante
Governo e defensores das PECs associam a escala 6x1 ao aumento de adoecimento, acidentes, desgaste mental e perda de qualidade de vida. Segundo o Ministério do Trabalho, cerca de 14,3 milhões de trabalhadores celetistas — o equivalente a 33% do total — ainda trabalham com apenas um dia de folga por semana.
Onde estão as divergências
É nas divergências que o debate trava.
Mudança via lei ou Constituição?
O governo quer resolver o tema por lei. As PECs pretendem mudar a Constituição. Paulo Azi considera esse ponto sensível, porque uma regra constitucional tende a ser mais rígida.
40 horas ou 36 horas?
O governo propõe 40 horas semanais. A PEC 221 fala em 36 horas. A PEC 8 combina 36 horas com semana de quatro dias.
Mudança imediata ou transição gradual?
O projeto do governo entra em vigor na data da publicação. Já a PEC 221 prevê uma transição de 10 anos. O parecer defende que a discussão sobre prazos e escalonamento precisa ser aprofundada.
Rigidez ou flexibilidade?
O projeto do governo já detalha a regra e suas adaptações. O parecer de Azi demonstra cautela com fórmulas muito rígidas, sobretudo para setores que funcionam 24 horas por dia ou dependem de escalas especiais.
Quem paga a conta?
O projeto do governo não traz, no texto enviado, um modelo de compensação para empresas. Já o relatório dedica espaço amplo aos efeitos econômicos da mudança e às experiências internacionais de compensação fiscal.
O argumento econômico pesa no debate
O parecer de Paulo Azi deixa claro que a discussão não é apenas trabalhista. Ela também envolve emprego, preços, produtividade e custos para as empresas.
O relatório reúne estudos de entidades empresariais que projetam aumento de custos, pressão inflacionária, perda de competitividade e risco de demissões se a redução da jornada for implementada sem transição ou compensação. Por outro lado, também registra argumentos de centrais sindicais, integrantes do governo e parlamentares favoráveis à mudança, que veem na redução da jornada uma forma de diminuir burnout, acidentes, afastamentos e rotatividade, além de melhorar a produtividade e a qualidade de vida.
Em outras palavras, o parecer não fecha a conta. Ele apenas mostra que o Congresso ainda terá de decidir quem absorverá o custo da transição e como evitar efeitos negativos sobre o emprego e sobre as pequenas empresas.
O que vem pela frente
Se as duas frentes avançarem, o Congresso terá de responder a perguntas decisivas:
Hoje, a saída mais provável ainda parece ser uma fórmula intermediária: 40 horas semanais, dois dias de descanso e espaço para negociação coletiva. Essa é a solução já desenhada pelo governo e também o ponto de maior aproximação entre os atores que participaram do debate na Câmara.
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