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REPASSES DE VORCARO
Congresso em Foco
11/9/2026 | Atualizado às 11:00
A Polícia Federal investiga a atuação do senador e candidato do PL à Presidência Flávio Bolsonaro (RJ) na obtenção de recursos junto a Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, para financiar Dark Horse, filme sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. O inquérito apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas e foi autorizado pelo ministro André Mendonça, do STF, em julho.
A investigação específica sobre o filme corre sob sigilo, mas sua existência veio à tona depois que Mendonça tornou públicos documentos de outros procedimentos relacionados ao caso Master. A PF pediu a abertura do inquérito em 8 de julho, a Procuradoria-Geral da República (PGR) deu parecer favorável no dia 21 e o ministro autorizou a medida no dia seguinte.
Segundo a PF, mensagens, ligações e registros encontrados no celular de Vorcaro mostram Flávio como "interlocutor direto" do banqueiro nas tratativas sobre o financiamento. Ao concordar com a abertura do inquérito, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, afirmou haver "indícios consistentes" das condutas relatadas pelos investigadores. As trocas de mensagem do senador com o banqueiro foram reveladas pelo site Intercept Brasil.
A existência do inquérito contra o senador foi tornada pública nesta sexta-feira (11) após Mendonça ter levantado na noite de quinta-feira o sigilo de parte das investigações da Operação Compliance Zero, após pedido do presidente do STF, Edson Fachin. Esta é uma das 15 investigações que tiveram o sigilo suspenso pelo ministro.
Cobranças e encontros com Vorcaro
Os contatos identificados pela PF remontam a dezembro de 2024. Naquele mês, Thiago Miranda Silva procurou Vorcaro para marcar uma reunião com Flávio e informou que um dos assuntos seria o "filme do presidente". O deputado Mario Frias (PL-SP), apontado como idealizador do projeto, também participaria.
Em janeiro de 2025, aparecem cobranças pelo primeiro aporte. A partir de agosto, segundo a PF, Flávio passou a tratar diretamente com Vorcaro. Em 20 de agosto, mensagens indicam um provável encontro presencial entre os dois.
Em 8 de setembro, o senador enviou um áudio cobrando pagamentos e demonstrou preocupação com o risco de a produção ficar inadimplente com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh. Vorcaro pediu desculpas e disse que tentaria resolver a situação.
Oito dias depois, houve uma ligação entre os dois. A PF destacou que o contato ocorreu no mesmo dia da última remessa identificada da Entre Investimentos para o Havengate Development Fund, fundo sediado nos Estados Unidos usado no financiamento do longa.
Ao longo de 2025, a Entre Investimentos enviou US$ 12,33 milhões ao Havengate. O acordo localizado nas comunicações de Vorcaro previa US$ 24 milhões para o filme, com parcelas de valores semelhantes às remessas identificadas pela PF. A coincidência temporal, ressalvam os investigadores, não prova por si só que a conversa tenha provocado a transferência.
"Estou e estarei contigo sempre"
Em outubro, Flávio voltou a cobrar os aportes e disse que a produção estava "no limite". Também convidou Vorcaro para jantar com o ator principal e o diretor do filme.
Em 7 de novembro, Flávio enviou um vídeo a Vorcaro e afirmou, segundo a PF, que aquilo só estava acontecendo graças à ajuda dele. Nove dias depois, às vésperas da prisão do banqueiro, tentou telefonar e escreveu: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!"
Ao analisar o episódio, Gonet afirmou que Vorcaro poderia ter obtido uma possível "promessa de apoio ou interferências do próprio senador". Ressalvou, porém, que ainda seria necessário identificar algum ato praticado por Flávio no exercício do mandato que estabelecesse relação entre os aportes e sua atuação parlamentar.
A PGR sugeriu, por isso, o levantamento de propostas legislativas apresentadas ou apoiadas pelo senador que pudessem interessar ao Banco Master, a empresas vinculadas à instituição ou a Vorcaro. Também recomendou buscas nos equipamentos já apreendidos pela PF. Até agora, os documentos conhecidos não apontam ato parlamentar específico de Flávio em benefício do banqueiro.
O que está sob investigação
A PF busca esclarecer se os aportes ao filme tiveram relação com a função pública de algum dos envolvidos ou envolveram vantagem indevida. Também apura possível lavagem de dinheiro e irregularidades nas remessas internacionais.
Depois de negar ter tido qualquer contato com Vorcaro, Flávio admitiu ter procurado o banqueiro para conseguir recursos para Dark Horse, mas negou irregularidades. Alegou que buscava investimento privado para uma produção sobre seu pai e que não ofereceu qualquer vantagem ao banqueiro.
Ao ser questionado sobre o financiamento, afirmou: "Não há um centavo de dinheiro público. Pode revirar do avesso."
Dark Horse aparece ainda em outra investigação no STF, distinta do inquérito sobre Flávio e Vorcaro. Sob relatoria de Flávio Dino, a PF apura se recursos de emendas destinadas pelo deputado Mario Frias, aliado e amigo de Flávio, ao Instituto Conhecer Brasil (ICB) chegaram, após movimentações entre empresas relacionadas, à Go Up Entertainment, produtora do filme. A apuração teve como alvos nesta semana Frias e a empresária Karina Gama.
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