O ministro Flávio Dino, do STF, ao citar a Operação Lava Jato, afirmou nesta terça-feira (15), que o Judiciário precisa aprender com experiências em que o combate à corrupção resultou no abandono de ritos e garantias processuais.
"Não é possível que não haja uma curva de aprendizado quanto a isto. Coletiva, inclusive para o Judiciário."
Ao defender o respeito ao devido processo legal, Dino afirmou que objetivos considerados legítimos não justificam a quebra das regras institucionais.
"Quando se quebra a institucionalidade em nome dos fins legítimos, nós estamos quebrando, ao mesmo tempo, o papel do Direito e a natureza da judicialidade."
Segundo o ministro, decisões judiciais não podem ser determinadas pela pressão social ou política.
"A judicialidade pressupõe que não é a lei do mais forte, não é a lei de quem grita mais, é a lei posta pelos órgãos legítimos a tanto", afirmou.
Lava Jato
Dino mencionou a Lava Jato como exemplo de uma experiência que, segundo ele, produziu decisões relevantes, mas também deixou consequências negativas para as instituições.
"Nós tivemos recentemente a experiência da Lava Jato. Onde nós chegamos com a Lava Jato? Provavelmente, decisões de altíssima importância, do ponto de vista jurídico. Mas também há desastres institucionais."
Para o ministro, episódios dessa natureza precisam servir de aprendizado para o próprio Poder Judiciário.
A argumentação foi usada por Dino para defender que o enfrentamento à corrupção seja realizado dentro das regras processuais, mesmo diante de casos que gerem forte repercussão pública.
Ele também criticou o que chamou de "combate seletivo à corrupção".
"Nós temos no Brasil, portanto, esse combate seletivo à corrupção. É uma marca brasileira. Corrupção de alguns gera mais comoção do que a corrupção de outros."
Dino afirmou que essa seletividade é prejudicial ao país e citou episódios históricos em que acusações de corrupção se misturaram a crises políticas, como a crise de 1954 e as acusações feitas durante o governo de Juscelino Kubitschek.
"Processos zumbi"
O ministro também disse que o Supremo ainda enfrenta consequências de procedimentos iniciados há cerca de uma década e que, segundo ele, permanecem sem uma solução clara.
"Nós temos aqui neste tribunal processos zumbi. Processos que vagueiam por aqui, por este tribunal, sem que ninguém saiba como sepultá-los."
Dino citou casos envolvendo valores depositados em decorrência de acordos de colaboração premiada, inclusive de pessoas posteriormente absolvidas ou que não chegaram a responder a ação penal.
Também mencionou pedidos de revisão de acordos que permanecem no Supremo mesmo sem, segundo ele, a presença de autoridades com prerrogativa de foro.
"Você pergunta: onde estão os autos principais? Em lugar nenhum", afirmou.
Para Dino, situações desse tipo são consequência do abandono das regras processuais.
"Houve um sacrifício dos ritos, um sacrifício das formas, sacrifício do devido processo legal. Se você não tem rito, você tem dois pesos e duas medidas. Que é a negação da Justiça", concluiu.
Relembre
A tensão no STF ganhou força a partir de decisões e investigações ligadas ao caso Banco Master, especialmente quando o ministro André Mendonça tirou o sigilo de relatório da PF que reunia supostos contatos entre Moraes e Vorcaro.
Após isso, em 3 de setembro, Alexandre de Moraes levou ao presidente da Corte, Edson Fachin, uma comunicação com acusações contra o colega e um relatório sem valor probatório.
Moraes afirmou que o colega teria ultrapassado os limites da relatoria ao direcionar investigações, interferir na condução de diligências e incluir como alvos o próprio Moraes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP). Essa manifestação deu origem à Petição 16.704, parte do inquérito das fake news, que passou a concentrar parte das acusações.
O conflito se ampliou quando Mendonça determinou o afastamento da cúpula da Polícia Federal e adotou decisões que depois passaram a ser questionadas pela Procuradoria-Geral da República e por outros ministros.
No dia seguinte, Flávio Dino mandou reintegrar Andrei Rodrigues ao cargo de diretor-geral da Polícia Federal e Leandro Almada à Diretoria de Inteligência. Fachin interveio e afirmou que a coexistência de procedimentos relacionados, sob diferentes relatorias, criava um "risco concreto de decisões contraditórias e de tumulto processual".
O presidente do STF passou então a centralizar na Presidência informações relacionadas aos casos e suspendeu as duas liminares. Ao intervir nas decisões conflitantes, afirmou que o STF havia chegado a um quadro de "conflitos e sobreposições processuais" capaz de configurar "grave lesão à ordem pública e à integridade deste tribunal".
Fachin determinou sessão extraordinária na próxima terça-feira (15) para analisar pedido da PGR pela nulidade do relatório. Na mesma decisão, o ministro revogou a designação de Moraes para conduzir o chamado inquérito das fake news.
Na noite de quinta-feira (10), a discussão chegou a um novo patamar com a determinação de Fachin que solicitou a retirada do sigilo completo no inquérito sob relatoria de Mendonça, que atendeu ao pedido.
Moraes então enviou ofício ao presidente da Corte para informar a supressão de 180 documentos e requerer a divulgação, o que levou Fachin a estabelecer prazo de 24h para que as peças passem a constar no processo.
No sábado (12), o toma lá, dá cá continua. Gilmar Mendes pediu ao presidente da Corte que determine o fornecimento da cópia integral dos dados extraídos do celular de Vorcaro. Já Fachin começou a responder as peças protocoladas na noite anterior e negou pedido de Moraes para incluir caso contra Mendonça na sessão de terça. Em contrapartida, a petição entra na pauta do dia 23 de setembro.
No domingo (13), a disputa passou a se concentrar também no acesso à íntegra do celular de Vorcaro. A Polícia Federal informou a Fachin que poderia fornecer imediatamente cópias dos dados, o compartilhamento, porém, dependeria de autorização do presidente do STF.
Gilmar Mendes também elevou o tom contra a condução de Mendonça. O decano afirmou que os ministros haviam recebido apenas "recortes de diálogos selecionados" do celular de Vorcaro e que, sem acesso aos dados completos, os integrantes do Plenário ficariam reduzidos à condição de "espectadores do trabalho desenvolvido pelo relator".
Mendonça se posicionou contra a medida naquele momento. O ministro afirmou que acrescentar às vésperas da sessão informações que ainda não constavam dos autos "somente contribuiria para tumultuar o julgamento" e sustentou que os elementos usados no relatório já estavam integralmente disponíveis aos demais ministros.
Ainda no domingo, Moraes apontou uma nova peça que, segundo ele, permanecia fora do material disponibilizado aos ministros: a Petição 15.645. O ministro pediu a Fachin que retirasse o sigilo do processo e disponibilizasse a íntegra dos autos antes do julgamento da Petição 16.662.
Fachin encaminhou o pedido à PGR para manifestação, que concordou com o pedido. O presidente da Corte determinou nesta segunda-feira (14) a quebra de sigilo solicitada por Moraes, que já foi acatada.