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Caso Master: Como a quebra do banco abriu uma teia de investigações

Do BRB ao Supremo, o caso se expandiu com novas suspeitas encontradas em documentos, contratos e movimentações financeiras.

11/9/2026
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O caso Banco Master já ultrapassou os limites de uma investigação sobre a quebra de uma instituição financeira.

O que começou com dúvidas sobre a capacidade do banco de honrar seus compromissos e suspeitas em operações bilionárias hoje reúne diferentes apurações sobre fundos de investimento, agentes públicos, parlamentares, empresários e integrantes do Judiciário.

No centro dessa história está Daniel Vorcaro, controlador do Master.

Sob seu comando, o banco cresceu rapidamente, captou bilhões de reais com títulos que ofereciam juros elevados e ampliou investimentos em ativos de maior risco ou difíceis de transformar rapidamente em dinheiro. Quando a liquidez começou a diminuir, o Banco de Brasília (BRB) surgiu primeiro como parceiro e, depois, como possível comprador.

A tentativa de venda não prosperou.

O Banco Central encontrou problemas nas operações, vetou a aquisição e comunicou indícios de irregularidades. A Polícia Federal entrou no caso, Vorcaro foi preso e o Master acabou liquidado em novembro de 2025.

Caso Master se expandiu após investigadores rastrearem movimentações financeiras e dados ligados a Daniel Vorcaro.Arte Congresso em Foco | Divulgação/Master

A partir daí, a investigação mudou de dimensão.

Com acesso a celulares, documentos, contratos e movimentações financeiras, a PF passou a reconstruir não apenas o que havia acontecido dentro do banco, mas também para onde o dinheiro havia ido e quais relações cercavam os negócios de Vorcaro.

Foi seguindo esses caminhos que os investigadores chegaram a fundos, empresas, instituições públicas, políticos e autoridades.

O aparecimento de pessoas com foro levou parte das apurações ao STF.

Meses depois, informações encontradas no próprio material investigado passaram a mencionar ministros da Corte, provocando a crise institucional que hoje envolve o tribunal, a Procuradoria-Geral da República e a cúpula da Polícia Federal.

Para compreender como uma investigação bancária alcançou esse tamanho, é preciso voltar à engrenagem que sustentou a expansão do Master.

Linha do tempo do caso Master reúne crise bancária, prisão, novas investigações e disputas no STF.Arte Congresso em Foco

O crescimento do Master e o problema de liquidez

Daniel Vorcaro entrou como sócio do então Banco Máxima em 2017.

Em 2019, o Banco Central autorizou a transferência do controle da instituição para ele e, dois anos depois, o banco passou a se chamar Banco Master.

Sob a nova gestão, a instituição cresceu rapidamente, ampliou operações, adquiriu empresas e aumentou significativamente o próprio balanço.

Uma das bases dessa expansão eram os Certificados de Depósito Bancário (CDBs).

Na prática, o investidor empresta dinheiro à instituição financeira e recebe posteriormente o valor acrescido de juros. O Master se tornou conhecido por oferecer remunerações superiores às de grande parte do mercado, chegando, em determinados períodos, a taxas próximas de 130% ou 140% do CDI.

Os papéis contavam ainda com a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que cobre até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ em cada instituição financeira, dentro das regras do fundo. A garantia ajudava a tornar os títulos atraentes apesar do risco maior.

O desafio estava na forma como parte desse dinheiro era aplicada. O banco mantinha recursos em precatórios, participações societárias, operações de crédito e outros ativos mais complexos ou de baixa liquidez.

Isso significava que, embora existisse patrimônio registrado no balanço, nem sempre esses ativos poderiam ser rapidamente convertidos em dinheiro para pagar compromissos que venciam.

O Banco Central começou a cobrar mudanças antes da quebra. Foram exigidos reforço de capital, provisões, melhora na gestão de risco e redução da dependência da captação por CDBs.

Em 2024, a autoridade monetária cobrou um plano para que o Master obtivesse cerca de R$ 15 bilhões com investidores institucionais. A instituição conseguiu aproximadamente R$ 2 bilhões.

Vorcaro sustentaria mais tarde à PF que o banco permanecia solvente, mas reconheceu a existência de uma crise de liquidez.

A diferença é importante: uma instituição pode possuir patrimônio suficiente no papel e, ainda assim, não ter dinheiro disponível na velocidade necessária para cumprir suas obrigações.

Foi nesse cenário que o BRB ganhou espaço na história.

BRB passa de parceiro a possível comprador

Antes de anunciar a intenção de comprar o Master, o Banco de Brasília, controlado pelo governo do Distrito Federal, já mantinha operações com a instituição de Vorcaro. Entre elas estava a aquisição de carteiras de crédito.

Esse tipo de negócio é comum no sistema financeiro. Um banco que tem valores a receber de clientes pode vender esses direitos a outra instituição em troca de dinheiro imediato.

O problema investigado pela Polícia Federal está na existência e no valor dos créditos negociados entre Master e BRB.

A PF passou a apurar aproximadamente R$ 12,2 bilhões em carteiras.

A suspeita é de que parte dos ativos não tivesse lastro suficiente ou não correspondesse aos créditos apresentados. O Banco Central identificou inconsistências nessas operações e comunicou os indícios às autoridades competentes.

Esse é o núcleo original da Operação Compliance Zero, que mais tarde se espalharia por outras frentes.

Enquanto as suspeitas avançavam, o BRB decidiu aumentar a aposta no Master.

Em março de 2025, anunciou a intenção de adquirir aproximadamente 58% do capital total do banco, com a compra de 49% das ações ordinárias e 100% das preferenciais.

A operação era apresentada pelo BRB como parte de sua estratégia de expansão. Para o Master, que já enfrentava pressão sobre a liquidez, também representava uma possível saída financeira.

O negócio avançou em diferentes instâncias, passou pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) e recebeu autorização legislativa no Distrito Federal. Mas dependia da aprovação do Banco Central.

Em setembro de 2025, o BC vetou a aquisição. Uma das preocupações era o chamado risco de sucessão: ao comprar o Master, o BRB poderia assumir passivos e obrigações em uma dimensão capaz de comprometer sua própria situação financeira.

O veto fechou uma das principais alternativas do banco de Vorcaro.

Ao mesmo tempo, as operações entre as duas instituições já estavam no radar das autoridades criminais.

Da quebra do banco à multiplicação das investigações

A investigação da Polícia Federal avançou depois que informações produzidas pelo Banco Central chegaram ao Ministério Público Federal. Em novembro, a crise financeira e a apuração criminal convergiram.

No dia 17 daquele mês, Daniel Vorcaro foi preso quando se preparava para embarcar para Dubai. Horas antes, a Fictor Holding havia anunciado uma nova proposta para adquirir o Master, em conjunto com investidores estrangeiros.

No dia seguinte à prisão, 18 de novembro de 2025, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do banco e de outras empresas do conglomerado.

A autoridade monetária apontou grave crise de liquidez, comprometimento econômico-financeiro e violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.

A liquidação encerrou as atividades do Master como banco, mas ampliou o alcance do problema.

O FGC foi acionado e informou posteriormente que cerca de 800 mil credores das instituições inicialmente liquidadas tinham aproximadamente R$ 40,6 bilhões em garantias.

O BRB também permaneceu exposto às operações realizadas antes da quebra e passou a precisar de reforço de capital diante das possíveis perdas.

Atualmente, o governo do Distrito Federal busca viabilizar uma operação de até R$ 6,6 bilhões para fortalecer a instituição.

Para a investigação criminal, a prisão de Vorcaro abriu outra etapa.

A PF teve acesso a celulares, computadores, contratos, documentos e movimentações financeiras.

O foco deixou de estar exclusivamente nas carteiras negociadas com o BRB e passou a incluir os caminhos percorridos pelos recursos do Master.

Os investigadores chegaram a empresas e fundos de investimento utilizados em diferentes operações.

A suspeita é de que, em alguns casos, recursos tenham circulado por estruturas sucessivas, com compra e venda de ativos por valores artificialmente elevados.

Esse mecanismo poderia servir, em tese, para transferir recursos, inflar patrimônio, esconder perdas ou dificultar a identificação dos beneficiários finais.

A partir desses rastreamentos surgiram novas frentes. Uma delas alcançou a RioPrevidência, que havia aplicado cerca de R$ 3,7 bilhões em produtos relacionados ao Master.

A PF passou a investigar as decisões que levaram aos investimentos e se houve vantagens indevidas. Buscas atingiram ex-dirigentes do fundo e o ex-governador do Rio Cláudio Castro.

Outras apurações passaram a examinar possíveis relações do grupo com os senadores Ciro Nogueira (PP-PI) e Jaques Wagner (PT-BA).

No primeiro caso, a PF analisa, entre outros pontos, uma proposta que poderia elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura individual do FGC.

No segundo, investiga eventual atuação parlamentar em benefício de interesses ligados ao banco. Ambos os casos seguem em apuração e não representam conclusão sobre responsabilidade criminal.

Também surgiram núcleos identificados pela PF como "A Turma" e "Os Meninos", sob suspeita de obtenção indevida de informações, intimidação e interferência nas investigações.

Outra linha passou a examinar uma estrutura de comunicação que teria sido usada para reagir às decisões do Banco Central, monitorar jornalistas e mobilizar influenciadores.

Até mesmo o financiamento de Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, apareceu no rastreamento financeiro.

A PF apura recursos relacionados a Vorcaro destinados à produção. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirma que buscou financiamento privado junto ao empresário, mas nega irregularidades ou contrapartidas. A investigação específica permanece sob sigilo.

Em paralelo, outro procedimento, relatado por Flávio Dino, apura possíveis irregularidades envolvendo recursos públicos e entidades relacionadas à produtora. São frentes distintas, embora alcancem o mesmo projeto.

O crescimento das apurações ajuda a explicar por que o caso Master deixou de ser uma investigação restrita ao sistema financeiro.

Cada novo conjunto de documentos ou movimentações abriu uma nova pergunta para os investigadores.

Do Master ao Supremo

O aparecimento de autoridades com foro por prerrogativa de função levou a investigação ao STF.

A defesa de Vorcaro pediu a remessa do processo à Corte e, em novembro de 2025, Dias Toffoli foi sorteado relator. No início de dezembro, ele determinou que as apurações permanecessem sob supervisão do Supremo e manteve medidas cautelares adotadas anteriormente.

A permanência de Toffoli na relatoria passou a ser questionada meses depois, quando a PF encontrou no celular de Vorcaro mensagens que mencionavam o ministro.

Também ganharam repercussão relações envolvendo o resort Tayayá, cuja estrutura societária havia incluído empresa da família de Toffoli e um fundo ligado a estruturas financeiras alcançadas pelo caso.

O ministro negou irregularidades.

Em fevereiro de 2026, pediu que os processos fossem redistribuídos. Os demais ministros do Supremo divulgaram nota afirmando que os atos praticados até então permaneciam válidos.

O sorteio levou as principais investigações para André Mendonça.

Sob a nova relatoria, as operações ganharam velocidade. Mendonça voltou a decretar a prisão preventiva de Vorcaro em março, sob o argumento de risco de interferência nas apurações, e autorizou sucessivas fases da Compliance Zero.

O caso, porém, passaria por uma nova mudança quando a análise dos aparelhos apreendidos começou a produzir informações sobre outros integrantes do próprio sistema de Justiça.

Celular de Vorcaro leva crise para dentro do STF

Parte do material extraído do celular de Daniel Vorcaro foi reunida na Petição 16.662.

A Polícia Federal identificou mensagens, documentos e metadados relacionados a diferentes autoridades, entre elas o ministro Alexandre de Moraes, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e integrantes da cúpula da própria PF.

A investigação também reuniu informações sobre o contrato do Banco Master com o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. O acordo previa pagamentos que poderiam chegar a cerca de R$ 131 milhões ao longo de sua vigência.

Metadados analisados pelos investigadores indicaram alterações feitas por Moraes em uma minuta relacionada ao contrato.

O escritório afirma que o ministro foi consultado apenas para verificar eventuais impedimentos decorrentes da atividade profissional da mulher e que não participou dos serviços prestados ao banco. Moraes nega irregularidades.

O ponto central da controvérsia que se abriu a partir daí não está apenas no conteúdo das mensagens. Está também na forma como a investigação foi conduzida depois que surgiram elementos relacionados a um integrante do próprio Supremo.

A PGR questionou diligências autorizadas por Mendonça e pediu a nulidade de parte do material.

Paulo Gonet sustenta que existem regras específicas para o aprofundamento de apurações envolvendo ministros da Corte e que esses procedimentos não teriam sido observados.

Mendonça rejeita essa interpretação e decidiu levar o impasse ao plenário. Moraes também pediu que a atuação do relator fosse examinada.

A crise se agravou quando Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência da instituição, Leandro Almada.

No dia seguinte, Flávio Dino determinou a reintegração dos dois.

O Supremo passou, assim, a ter decisões conflitantes sobre a própria cúpula da PF.

Fachin intervém e processos deixam o sigilo

Diante do impasse, o presidente do STF, Edson Fachin, assumiu a condução das questões institucionais geradas pelo caso.

Fachin abriu a Petição 16.704, destinada a examinar a forma como as investigações foram conduzidas e o tratamento dado a elementos relacionados a autoridades com foro.

Também pediu informações a André Mendonça, Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues.

O presidente da Corte também suspendeu decisões conflitantes sobre a direção da PF e passou a concentrar na Presidência questões diretamente relacionadas a investigações que alcancem integrantes do próprio tribunal.

Em seguida, convocou sessão extraordinária do plenário para 15 de setembro.

Às vésperas do julgamento, outra questão ganhou importância: grande parte dos procedimentos do caso Master ainda corria sob segredo de Justiça.

Na quinta-feira (10), Fachin solicitou a André Mendonça o levantamento do sigilo dos autos relacionados às investigações, com a preservação apenas das informações cuja divulgação pudesse comprometer diligências em andamento.

A medida precisava ser formalmente adotada pelo relator. Mendonça atendeu à solicitação e tornou públicos 15 procedimentos.

Por isso, passaram a ter acesso público:

A Petição 16.704, instaurada pela Presidência do STF para tratar das controvérsias envolvendo a condução da investigação, também tramita publicamente.

A retirada do sigilo não alcançou todos os braços do caso.

Mendonça manteve protegidos procedimentos com diligências ainda em andamento ou informações consideradas sensíveis, entre eles algumas das investigações derivadas das movimentações financeiras identificadas pela PF.

Um caso que já não cabe em uma única investigação

A multiplicação de personagens ajuda a tornar o caso Master difícil de acompanhar, mas não significa que todas as pessoas e instituições mencionadas sejam investigadas pelos mesmos fatos.

O núcleo inicial continua sendo o financeiro: a situação do Banco Master, suas operações com o BRB e a suspeita de utilização de carteiras de crédito sem lastro.

A partir dele, o rastreamento de dinheiro, documentos e comunicações abriu novos braços envolvendo fundos de investimento, agentes públicos, políticos e empresários. Em alguns casos, a relação é diretamente financeira.

Em outros, a PF tenta descobrir se houve influência, favorecimento, interferência nas investigações ou algum tipo de contrapartida.

Há ainda uma terceira camada, criada quando o material apreendido passou a alcançar integrantes do Judiciário.

Nesse ponto, além de descobrir se houve crimes nas operações do Master, o STF passou a enfrentar uma questão sobre a própria condução da investigação.

É essa combinação que explica o tamanho atual do caso.

Agora, o Supremo terá de decidir não apenas sobre o conteúdo de parte dessas provas, mas também sobre como uma investigação deve prosseguir quando os elementos encontrados alcançam ministros da própria Corte encarregada de supervisioná-la.

A sessão extraordinária marcada para 15 de setembro será o próximo passo dessa disputa e pode definir os limites da atuação de Mendonça, o destino do material questionado pela PGR e as regras para o prosseguimento das investigações no STF.

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